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Luiz Gama, o menino que nasceu livre e foi escravizado

Reprodução

Essa é a história de um menino negro que nasceu livre. Ele nasceu em Salvador, na Bahia, em 1830, quando muitos negros eram escravizados no Brasil. Era filho de uma africana também livre e de um nobre português. Mas sua vida mudou de repente. Aos dez anos, após o desaparecimento de sua mãe, seu pai o vendeu como escravo para pagar dívidas. O menino livre se tornou escravo. Seu nome? Luiz Gonzaga Pinto da Gama.

Ainda menino, Luiz Gama foi trabalhar como escravo em uma residência em São Paulo. Lá, aprendeu a ler e a escrever. Também aprendeu algumas atividades profissionais.

Mais velho, conseguiu provar ter nascido livre. Sua vida mudou novamente. Ele começou uma trajetória impressionante. Tornou-se poeta, advogado e jornalista. Foi um dos principais nomes do movimento pelo fim da escravidão no Brasil. Mas como tudo isso aconteceu?

Depois de se tornar um homem livre de novo, Luiz Gama realizou diversas atividades. Foi soldado e escrivão. Em 1859, entrou para o mundo das letras e publicou um livro de poemas que criticava a maneira de viver da sociedade daquela época e condenava a escravidão. Depois, começou a escrever em jornais de humor e de crítica política.

Além de fazer discursos e escrever artigos na imprensa contra a escravidão, Luiz Gama dedicou-se a defender gratuitamente escravizados na Justiça, tanto os acusados de crimes quanto os que buscavam sua liberdade. Ele não chegou a frequentar uma faculdade de direito. Mas conseguiu do governo uma licença para exercer a profissão de advogado. Era muito reconhecido e passou a ser procurado por escravizados de outras cidades. Em 1881, fundou a Caixa Emancipadora Luiz Gama, para arrecadar fundos para a compra de alforrias.

O menino que nasceu livre, foi escravizado e depois se tornou um intelectual e um dos principais líderes da campanha abolicionista no Brasil faleceu em 1882. Ele não viu o fim da escravidão no último país da América a aboli-la. Isso porque o Brasil só aboliu a escravidão em 1888, após a assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio.

 

Pedro Krause
Professor do Departamento de História do Colégio Pedro II
Doutor em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro

Robertha Triches
Professora do Departamento de História do Colégio Pedro II
Doutora no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense (PPGH-UFF)

Originalmente publicado na CHC 289


Mário de Andrade, da música à poesia

Retrato de Mário de Andrade, de Lasar Segall

O menino Mário Raul de Moraes Andrade nasceu na cidade de São Paulo no dia 9 de outubro de 1893. Faz tempo, hein?! Quando ele tinha 18 anos, entrou para o Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, um colégio para formar músicos. Um dos seus irmãos, Renato, também sonhava ser músico. Mário, estudioso como ele só, em dois anos já era professor substituto do conservatório. Mas Renato, seu irmão, morreu. Mário ficou muito triste e não quis mais estudar música. Preferiu a poesia.

Aos 24 anos, ele lançou o seu primeiro livro: Há uma gota de sangue em cada poema. Nele, Mário falava sobre a Primeira Guerra Mundial. Defendia a paz. Ele não entendia como os humanos podiam fazer tantas maldades no mundo.

Ainda com 24 anos, Mário conheceu duas importantes pessoas: Anita Malfatti e Oswald de Andrade. O trio se juntou a Tarsila do Amaral, Menotti Del Picchia, Heitor Villa-Lobos e Di Cavalcanti, entre outros artistas, para organizar a Semana de Arte Moderna.

A Semana de Arte Moderna aconteceu em fevereiro de 1922, na cidade de São Paulo. Foi um evento cultural que reuniu muitos artistas, das mais diferentes formas de arte. O evento trazia as novidades de fora, mas os modernistas – como ficaram conhecidos Mário e os demais organizadores da Semana – valorizavam a cultura e o patrimônio nacionais. Estavam de olho na cultura brasileira! Por isso, na década de 1920, Mário percorreu várias regiões do país, conhecendo a história do Brasil e a cultura popular. Era um “turista aprendiz”.

Com pouco mais de 30 anos, Mário de Andrade já era um escritor respeitado – já tinha mais de 30 livros publicados. Foi morar no Rio de Janeiro, mas não gostou muito da cidade e voltou para São Paulo. Com 50 anos, produzia mais uma reunião de poemas, Lira paulistana. Mas Mário ficou triste, muito triste de novo, como na época da morte seu irmão. Escreveu em uma das poesias que tudo parecia como a noite: Escuridão. Treze dias depois de terminar esse poema, morreu. Era 25 de fevereiro de 1945. Mas suas ideias ficaram marcadas para sempre na história da cultura brasileira.

Para saber mais sobre este poeta, escritor de romances, historiador, estudioso de música, professor, crítico de arte – ufa! –, visite o site da Casa Mario de Andrade.

 

Pedro Krause
Professor do Departamento de História do Colégio Pedro II
Doutor em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro

 Originalmente publicado na CHC 290

Encontre no caça-palavras alguns artistas que participaram da Semana de Arte Moderna e aproveite para pesquisar sobre cada um deles!

 


Hilária Batista de Almeida, ou melhor, Tia Ciata

Reprodução

Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata, nasceu em 1854, na cidade de Salvador, Bahia. Desde criança esteve em contato com a cultura de seus ancestrais africanos. Mais tarde, tornou-se uma líder religiosa, uma mãe de santo.

Aos 22 anos de idade, ela se mudou para o Rio de Janeiro, estava em busca de uma vida melhor. Era casada com João Batista da Silva, baiano com quem teve quinze filhos!

Tia Ciata foi quem construiu junto com outras “tias” de sua geração – “tias” era o tratamento que recebiam as senhoras que vinham da Bahia e faziam questão de manter vivas as suas tradições –, a figura carioca das baianas quituteiras, vendendo, em seu tabuleiro, pelas ruas da cidade, cocadas, bolos, manjares, entre outras gostosuras. Além de vender doces, Tia Ciata alugava roupas de baianas para teatros e para o carnaval dos clubes.

Muita gente ia atrás de Tia Ciata por acreditar em seus poderes de curandeira. Até mesmo um Presidente da República, Wenceslau Brás, que sofria com um machucado na perna que não sarava, procurou por ela. Satisfeito, arrumou um emprego para o marido de Tia Ciata no gabinete do Chefe de Polícia da época.

Nessa época, as tradições das comunidades negras, como a religião e a música, eram perseguidas por autoridades policiais e políticas. Terreiros de candomblé eram invadidos e fechados, religiosos eram presos e seus objetos sagrados eram destruídos. Tia Ciata tinha a sorte de seu marido trabalhar na polícia e garantir segurança para realizar suas festas e rituais.

Foi na região do centro do Rio conhecida como Pequena África que Tia Ciata se tornou uma líder da comunidade negra da cidade, ajudando na organização do trabalho, na realização de festas e na educação das crianças.

Por tudo que representava, a casa de Tia Ciata vivia cheia. Recebia jornalistas, sambistas e outras pessoas consideradas importantes na época.

Tia Ciata faleceu no Rio de Janeiro em 1924. Sua história de vida se mistura com as tradições da cidade e a cultura afro-brasileira.

 

Robertha Triches
Professora do Departamento de História do Colégio Pedro II
Doutora em História pela Universidade Federal Fluminense

Originalmente publicado na CHC 291


Chico Mendes: em defesa da Amazônia

A cidade de Xapuri, no estado do Acre, fica bem na fronteira do Brasil com a Bolívia e foi onde nasceu Francisco Alves Mendes Filho – o Chico Mendes –, em 15 de dezembro de 1944. Este brasileiro é considerado um dos maiores defensores da Amazônia, seu nome é reconhecido no mundo todo. A sua vida foi diretamente ligada à floresta, onde morreu em 1988, assassinado por pessoas que não gostavam de sua luta pela defesa da conservação da natureza.

Chico Mendes era filho de Francisco Alves Mendes e de Maria Rita Mendes. Ele aprendeu o ofício de seringueiro com o pai. Seringueiro é quem trabalha extraindo de uma árvore chamada seringueira o látex (material que serve para produzir borracha).

Como a área da floresta amazônica está em diversos países – Brasil, Peru, Colômbia, Venezuela e Bolívia –, nem sempre seringueiros e seringalistas (que são os donos das terras onde nascem as seringueiras) respeitavam as fronteiras entre os países, gerando muitas guerras e conflitos por terras.

Os anos se passaram. Os conflitos entre países cessaram, mas as brigas entre os seringalistas e os seringueiros continuaram. Nesse momento foi que nasceu Chico Mendes. Desde cedo, ele aprendeu sobre o difícil trabalho dos seringueiros. Na vida adulta, na década de 1970, envolveu-se na luta pelos direitos dos trabalhadores rurais do Acre. Era uma forma de se organizar politicamente e de se defender, além de defender os outros seringueiros.

Em 1977, foi um dos fundadores do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri e se tornou vereador. Sofreu ameaças, foi perseguido, preso e torturado. Ainda assim não desistiu. No momento em que a Ditadura Militar (uma forma de governo em que a população não podia se expressar) chegava ao seu fim, ajudou na criação do Partido dos Trabalhadores e liderou o primeiro Encontro Nacional dos Seringueiros, em 1985.

Sua luta, então, ultrapassou as fronteiras de Xapuri, do Acre, da região Norte, e até do Brasil. Chico Mendes ficou conhecido no mundo inteiro! Entre 1987 e 1988, Chico recebeu inúmeros prêmios internacionais e pôde falar ao mundo sobre o desmatamento no Brasil.

Ele, porém, jamais abandonou Xapuri, continuou vivendo na região onde nasceu. No dia 22 de dezembro de 1988, Chico estava na sua casa e foi morto a tiros. Os vilões que pensavam ter calado Chico Mendes para sempre se enganaram! Porque seu nome continua muito vivo entre todos que defendem a preservação do meio ambiente no Brasil e no mundo.

 

Pedro Krause
Professor do Departamento de História do Colégio Pedro II
Doutor em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro

 

Originalmente publicado na CHC 301

 

Organize a imagem e conheça Chico Mendes!


Oswaldo Cruz e as vacinas

Reprodução

Esta é a história de um importante médico e cientista brasileiro, Oswaldo Gonçalves Cruz. Ele nasceu em 5 de agosto de 1872, na cidade de São Luís do Paraitinga, em São Paulo. Bem pequeno, aos 5 anos, em 1877, o pequeno Oswaldo, seus pais e irmãos se mudaram para o Rio de Janeiro. Na cidade carioca, ele cresceu, estudou e se formou em medicina, em 1892. E sabe com quantos anos ele entrou para a faculdade? Com apenas 14 anos!

Oswaldo Cruz morou e estudou no Rio de Janeiro, mas foi quando viajou para a França, no final do século 19, que sua vida e suas ideias mudaram muito! Na Europa, ele aprendeu um pouco mais sobre formas de curar graves doenças e epidemias, que é quando essas doenças se espalham.

De volta ao Brasil, ele colocou em prática os seus aprendizados. Depois de trabalhar na cidade de Santos, em São Paulo, retornou para o Rio de Janeiro, para trabalhar no Instituto Soroterápico Federal, em um lugar conhecido como Fazenda Manguinhos. Em 1903, o governo o convidou para combater as epidemias que afligiam a população do Rio de Janeiro: a febre amarela (transmitida por mosquitos), a varíola (um vírus que causa muitas marcas na pele) e a peste bubônica (doença quase sempre fatal, transmitida por pulgas de roedores, como os ratos, ou através da tosse e do espirro).

Na época, o presidente do Brasil, Rodrigues Alves, e o prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Francisco Pereira Passos, tinham um plano maior e queriam envolver Oswaldo Cruz neste plano. A ideia era reformar a capital do país, modernizando os portos e combatendo as doenças. Para a parte da saúde, eles deram poderes a Oswaldo Cruz. Para combater a febre amarela e a peste bubônica, ele enviava guardas para entrarem nas casas das pessoas (mesmo à força), isolando os doentes e combatendo ratos e focos de mosquitos. Oswaldo Cruz também conseguiu que fosse aprovada uma lei que tornava obrigatória a vacinação contra a varíola.

Mas essa forma violenta de ação começou a desagradar o povo. Afinal, usar a força bruta, sem nenhuma conversa, não era uma boa maneira de resolver os problemas de um país. O povo então foi para as ruas da cidade protestar contra o governo em novembro de 1904, na Revolta da Vacina. Um grupo de políticos, aproveitando a situação, tentou derrubar o presidente Rodrigues Alves, ou seja, tentou pegar o seu cargo. O clima estava muito tenso. A reação do governo foi enérgica. Os mais pobres sofreram muito com a ação violenta dos policiais. O governo, porém, acabou com a lei da vacinação obrigatória.

Oswaldo Cruz, apesar de tudo, conseguiu eliminar a febre amarela na cidade. Em 1907, o médico recebeu um importante prêmio na Alemanha por suas descobertas. Ele ganhou ainda mais prestígio para transformar a antiga Fazenda Manguinhos em um lugar para estudar e combater diversas doenças. De fato, desde 1905 já estava sendo construído naquela região um novo prédio, o Pavilhão Mourisco, ou o Castelo de Manguinhos. Em 1908, o local recebeu o nome de Instituto Oswaldo Cruz, em sua homenagem.

O cientista de São Luís do Paraitinga ganhou o mundo. Na década de 1910, ele percorreu o Norte do Brasil, ajudando a combater epidemias. Voltou para a Europa em 1914, mas logo teve que retornar ao Brasil. A Primeira Guerra Mundial, triste episódio da história, tinha começado. Em 1916, sofrendo de problemas nos rins, mudou-se para Petrópolis, no Rio de Janeiro. Virou prefeito da cidade. Mas não conseguiu levar à frente outros planos que tinha em mente. Oswaldo Cruz morreu bem jovem, aos 44 anos, em 11 de fevereiro de 1917.

 

Pedro Krause
Professor do Departamento de História do Colégio Pedro II
Doutor em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro

Originalmente publicado na CHC 293

Associe as imagens aos nomes e conheça alguns lugares onde Oswaldo Cruz já esteve

 


Carolina Maria de Jesus, a menina que sonhava ser artista

Reprodução

Carolina Maria de Jesus nasceu em 14 de março de 1914, na cidade de Sacramento, interior de Minas Gerais, em uma família muito pobre. Trabalhava na roça com os pais e não pôde estudar por muito tempo em uma escola. Ainda assim, ela lia o que podia, aprendendo muita coisa sozinha. Tinha o sonho de ser artista.

Na década de 1930, saiu de sua cidade e andou pelo estado de São Paulo. Fazia de tudo um pouco para sobreviver. E como ela trabalhou na vida! No ano de 1947, foi morar em uma grande favela da cidade de São Paulo, no Canindé. Nesta época, ganhava dinheiro limpando casas de famílias ricas. Será que nas horas vagas ela lia os livros das bibliotecas de seus patrões? É possível, porque ela gostava mesmo de aprender as coisas.

Morando na favela, Carolina teve três filhos: Vera, José e João. Ela cuidava dos três sozinha –era chefe de sua família. Ela alimentava, protegia e amava os filhos. Muitas mulheres no Brasil vivem do mesmo modo que Carolina. Era uma mulher forte.

Mas a vida não era nada fácil para ela. Para cuidar dos três, Carolina virou catadora de papel nas ruas de São Paulo. A sua alma de artista achava tudo muito confuso. Como podia ter dois mundos na cidade grande: o dos ricos e o dos pobres? Entre restos de jornais, caixas de papelão, revistas e livros, Carolina encontrou cadernos velhos sem uso. Ela começou a escrever sobre o que via, o que sentia.

Parece estranho, mas a época em que Carolina começou a fazer os seus escritos foi um período de grande entusiasmo no Brasil. Vivíamos um momento de democracia, que durou de 1946 a 1964. A imprensa era livre para escrever sobre os acontecimentos. Muitas cidades cresciam com a chegada de grandes empresas internacionais ao país. A seleção de futebol foi campeã da Copa do Mundo de 1958. O presidente da República Juscelino Kubitschek começou a construir uma nova capital para o país, Brasília. Alguns chamam esse período de Anos Dourados, tamanha a animação.

Mas o olhar de Carolina era de tristeza e incerteza. Aquelas mudanças não eram para todos. Aqueles dois mundos, dos ricos e pobres, ficavam ainda mais distantes. Certo dia, um jornalista foi fazer uma reportagem na comunidade em que Carolina vivia. Foi um encontro inesperado. Ela disse para ele que tinha escrito um livro. O jornalista, Audálio Dantas, que também era sensível à pobreza do nosso país, quis saber o que aquela mulher tinha produzido. E ele achou muito bom o que leu. Reuniu os textos de Carolina e… em 1960 era publicado o primeiro livro daquela mulher batalhadora. Chamava-se Quarto de despejo: diário de uma favelada.

O sucesso foi instantâneo. Foram vendidas milhares de cópias do livro, que foi traduzido para, pelo menos, 13 idiomas diferentes. Carolina se tornou uma das escritoras brasileiras mais lidas no mundo. Conseguiu se mudar para uma casa melhor e continuou a cuidar dos seus filhos sozinha.

Depois de seu primeiro sucesso, Carolina ainda escreveu Casa de alvenaria, de 1961, Provérbios e Pedaços de fome, em 1963, e Diário de Bitita, que foi publicado depois de sua morte, que foi em 13 de fevereiro de 1977. A menina que sonhava ser artista mostrou, através da literatura, o mundo como seus olhos conseguiam vê-lo.

 

Pedro Krause
Professor do Departamento de História do Colégio Pedro II
Doutor em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro

Originalmente publicado na CHC 294


Nise da Silveira, a cientista brasileira louca pela medicina

Nise da Silveira nasceu em 1905, na cidade de Maceió, Alagoas. Foi uma das primeiras mulheres a se formar médica no país, entrando para a Faculdade de Medicina da Bahia, com apenas 21 anos de idade. Era a única mulher de sua turma! Especializou-se em psiquiatria, área que cuida de problemas mentais, porque tinha interesse em estudar uma doença, a esquizofrenia.

Após o falecimento dos seus pais, foi morar no Rio de Janeiro. Na nova cidade, foi aprovada em um concurso público para trabalhar no Hospital Psiquiátrico da Praia Vermelha. Nise tinha muitas ideias para melhorar a vida de seus pacientes, mas era uma época em que as pessoas não podiam se expressar livremente. Tudo era julgado pelo governo e, se algo fugisse do padrão, as pessoas poderiam ir presas. Foi o que aconteceu com Nise, que, por ter ideias diferentes para tratar seus pacientes, acabou sendo presa em 1936 e ficou na cadeia por mais de um ano.

Nise só voltou a atuar como médica em 1944, quando foi trabalhar no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II. Lá, Nise não aceitou a forma com que os pacientes eram tratados. Para ela, eram métodos muito agressivos, como as sessões de eletrochoque (em que o paciente leva choques elétricos na cabeça), o uso de camisas de força e o isolamento em quartos fechados. Ela queria dar aos seus pacientes um tratamento mais humano, em que a saúde e a vontade deles fossem levadas em conta. Por isso, se recusava a seguir as antigas práticas.

Rejeitada pela maioria dos médicos do hospital, Nise foi transferida para o setor de terapia ocupacional. Mais uma vez, ela surpreendeu e criou a seção que chamou de Terapêutica Ocupacional, um tratamento mental em que os pacientes podiam se expressar por meio da arte. Organizou diversos ateliês, como o de pintura e de modelagem. Seus pacientes puderam ter mais noção da realidade e melhoraram o quadro de doenças mentais. A partir dos trabalhos produzidos por seus pacientes, Nise fundou, em 1952, no Rio de Janeiro, o Museu de Imagens do Inconsciente, um centro de pesquisa e estudo sobre a esquizofrenia.

Alguns dos artistas revelados por ela alcançaram reconhecimento internacional, como Arthur Bispo do Rosário. Em 1956, Nise desenvolveu outro projeto considerado revolucionário: a criação da Casa das Palmeiras, um hospital que oferecia também um pouco do convívio com a sociedade. Era uma alternativa para os chamados manicômios ou hospícios, que, segundo ela, tratavam as pessoas como prisioneiras, e não como pacientes.

Nise da Silveira faleceu em 1999, no Rio de Janeiro, mas deixou precioso conhecimento reproduzido por muitos médicos até hoje. Conhecer sua história nos ajuda a compreender e reconhecer a importância das mulheres cientistas brasileiras para o desenvolvimento do conhecimento no Brasil.

 

Robertha Triches
Professora do Departamento de História do Colégio Pedro II
Doutora em História pela Universidade Federal Fluminense

Originalmente publicado na CHC 295

Organize a imagem e conheça Nise da Silveira!


João da Cruz e Sousa, uma luta pelos livros

Ilustração Nato Gomes

João da Cruz e Sousa nasceu em 24 de novembro de 1861, em uma chácara da cidade de Desterro – onde hoje é Florianópolis, no estado de Santa Catarina. Ele era filho de duas pessoas que foram escravizadas, mas que, pelas leis da época, depois foram libertas: Carolina Eva da Conceição e Guilherme da Cruz.

O menino negro nasceu em um país racista, onde pessoas filhas de ex-escravos não tinham muitas oportunidades e carregavam muitas marcas. O sobrenome Sousa, por exemplo, veio do proprietário de seus pais, o marechal Guilherme Xavier de Sousa. Era assim no Brasil da escravidão: mesmo nascendo livre, a pessoa carregava para sempre o nome do antigo “dono”.

Quando criança, Cruz e Sousa, como se tornaria conhecido, foi criado na casa grande, isto é, na casa em que moravam os patrões de seus pais. A mulher do marechal Guilherme, Clarinda Fagundes Xavier de Sousa, ensinou o menino a ler e escrever. Entre 1871 e 1876, ele estudou em uma das melhores escolas de Santa Catarina – o Ateneu Provincial Catarinense. Era um dos seus melhores alunos!

Mas toda a sua formação e conhecimento não eram reconhecidos pela elite da sua cidade. Cruz e Sousa sofreu todas as formas de preconceito, desde o racismo disfarçado (aquele em que as outras pessoas apenas toleram quem não é branco) até o mais direto, que isolava o menino. Ele sempre teve muita dificuldade de conseguir levar à frente o seu sonho de ser escritor e se tornar um poeta. Em 1881, lançou um jornal literário, o Colombo, que durou poucos meses. Depois, juntou-se a um grupo de teatro, a Companhia Dramática Julieta dos Santos, percorrendo o país.

Em 1884, quando voltou para Santa Catarina, foi convidado para ser promotor público, mas foi impedido pelos chefes locais, que não queriam um funcionário negro trabalhando para a Justiça. Ainda assim, Cruz e Sousa não desistiu de seus sonhos. Em 1885, fez um livro, Tropos e Fantasias, com o amigo Virgílio Várzea e fundou um jornal ilustrado, O Moleque. Entretanto, a situação de racismo e perseguições permanecia.

Em 1893, Cruz e Sousa, então, decidiu tentar a sorte no Rio de Janeiro, capital do país na época. No mesmo ano, com muito esforço, publicou dois livros: Missal e Broquéis. Ele acreditava que, no Rio de Janeiro, teria o seu talento reconhecido, mas não foi o que aconteceu.

Casou-se, teve quatro filhos e levava uma vida muito difícil. Faltava dinheiro, faltava espaço e uma doença muito comum naquela época, a tuberculose, atingiu a todos da família.

Naquele final do século 19, era muito comum que as pessoas doentes fossem transferidas para lugares distantes para tratamento. Cruz e Sousa, apesar das dificuldades financeiras, foi para um desses lugares. Antes de partir, em 1897, deixou várias páginas de poesias prontas com o amigo Nestor Vítor, cujo título era Evocações.

Cruz e Sousa não viu o seu novo livro ser publicado. Morreu aos 36 anos, em 19 de março de 1898. Seus filhos e sua esposa também morreram da mesma doença que tirou a vida do escritor. O poeta negro teve sua obra rejeitada quando era vivo. Anos após a sua morte é que a sua poesia passou a ser valorizada por muitos especialistas em literatura.

 

Pedro Krause
Professor do Departamento de História do Colégio Pedro II
Doutor em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro

Originalmente publicado na CHC 296


Júlia Lopes de Almeida, pela liberdade feminina

Foto Wikipédia

Júlia Lopes de Almeida nasceu no Rio de Janeiro, em 24 de setembro de 1862. Aprendeu as primeiras letras com a mãe e recebia seus professores em casa, onde tinha aulas de piano, língua inglesa, literatura, entre outras disciplinas do seu interesse. Esse tipo de educação e o fato de sua família receber em casa escritores e outros pensadores influenciaram a escolha de Júlia pelo mundo das letras, tornando-se, no final do século 19, a mais importante escritora do país.

Desde a adolescência, a menina cultivava o hábito da escrita, principalmente de poesias. Aos 19 anos, incentivada pelo pai, começou a contribuir para o jornal Gazeta de Campinas, publicando principalmente textos em prosa e artigos.

Em 1886, foi morar em Portugal com a família. Em Lisboa, publicou seu primeiro livro, Traços e Iluminuras. Ao retornar ao Brasil, em 1888, ela publicou os romances Memórias de Marta e A Família Medeiros. Esse último foi considerado um importante romance abolicionista, isto é, uma história que fazia a defesa do fim da escravidão no Brasil – que só aconteceu oficialmente em 13 de maio de 1888, após a assinatura da Lei Áurea.

Mas a vocação de Júlia ia além dos livros. Ela virou uma inspiração para algumas mulheres brasileiras do final do século 19, ao sobreviver do seu trabalho como escritora, tornando-se uma “profissional das letras”, e discutir igualmente com os outros escritores temas políticos que, de acordo com os costumes daquela época, deveria ser conversa somente para homens.

Como a maior parte das mulheres de sua época, Julia foi vítima do machismo da sociedade. Participou desde o início das reuniões para a organização da Academia Brasileira de Letras (ABL), ao lado de seu marido Filinto de Almeida e de intelectuais como Machado de Assis, Olavo Bilac, Graça Aranha, Guimarães Passos, Rui Barbosa, entre outros. No entanto, com a criação da instituição, em julho de 1897, ela foi excluída por ser mulher, permanecendo apenas o nome de seu marido.

Júlia não desistiu de sua luta. Em 1919, ao lado de Bertha Lutz, bióloga e política defensora dos direitos das mulheres, participou da criação da Legião da Mulher Brasileira, uma associação que lutava pela liberdade e independência feminina. Em 1922, colaborou também, junto com Bertha, com a organização do Primeiro Congresso Internacional Feminista, realizado no Rio de Janeiro. Dentre outras questões, essa grande reunião defendia o direito de voto das mulheres.

O direito ao voto só foi conquistado pelas mulheres no Brasil em 1932, com a aprovação de um novo Código Eleitoral, que foi incorporado à Constituição de 1934. Júlia Lopes de Almeida seguiu até os seus últimos dias de vida defendendo a liberdade feminina e ressaltando a importância da educação nesse processo de libertação da mulher. Ela faleceu no Rio de Janeiro em 30 de maio de 1934.

 

Robertha Triches
Professora do Departamento de História do Colégio Pedro II
Doutora em História pela Universidade Federal Fluminense

Originalmente publicado na CHC 297

Encontre no caça-palavras intelectuais e cientistas presentes na trajetória de Júlia Lopes de Almeida e aproveite para pesquisar sobre cada um deles!

 


Zuzu Angel, da costura à história do Brasil

Foto Wikipédia

Essa é a história de Zuleika. Desde menina, ela gostava de costurar para as primas. Foi assim que ela iniciou a sua carreira no ramo da moda e ganhou o mundo como uma das mais importantes estilistas da nossa história.

Zuzu Angel, como ficou conhecida, nasceu em 5 de junho de 1921, na cidade de Curvelo, em Minas Gerais. Ainda criança, mudou-se para Belo Horizonte, capital mineira. Desde muito cedo, os retalhos de tecido viravam ideias de roupas na cabeça de Zuzu. Ela nasceu estilista!

Na juventude, Zuzu foi de Belo Horizonte para Salvador, capital da Bahia. Em cada lugar que morava, alimentava a sua alma de artista. As cores que via, as histórias que ouvia, o que aprendia da cultura popular, tudo que observava passaria a fazer parte da sua obra.

Na década de 1940, Zuzu conheceu o norte-americano Norman Angel Jones, com quem se casou e teve três filhos: Stuart, Hildegard e Ana Cristina. Logo após o nascimento do primeiro filho, foi morar no Rio de Janeiro, onde seu trabalho de estilista começou a ganhar reconhecimento e fama. Seu trabalho começava a chamar atenção fora do país também. No final da década de 1960, Zuzu Angel começou a produzir desfiles em Nova Iorque, nos Estados Unidos. Ela dizia que a moda não era uma coisa fútil, sem importância, mas uma forma de comunicação.

Para comunicar a influência do Brasil nas roupas e acessórios que criava, Zuzu usava muitas estampas e pedras. Algumas vezes suas criações faziam referência a figuras históricas de mulheres fortes, como Maria Bonita e Carmem Miranda.

Mas a carreira de sucesso não impediu que Zuzu passasse por uma das maiores dores que uma pessoa pode sentir: perder um filho.  Em 1971, Stuart, que era estudante universitário, foi preso porque participava de movimento contra a ditadura militar, isto é, o governo autoritário que vigorava no Brasil na época. Zuzu tentava ter notícias de Stuart sem sucesso…

Naquele mesmo ano, ela fez um desfile em Nova Iorque para protestar contra o desaparecimento de seu filho e o de muitos outros brasileiros e brasileiras presos como ele. Nas suas roupas, imprimiu manchas vermelhas para simbolizar o sangue dos perseguidos pela ditadura, pássaros engaiolados para simbolizar os presos políticos, entre outras representações. Foi um desfile marcante.

Zuzu passou anos buscando notícias do filho que, segundo uma testemunha, foi morto no mesmo dia de sua prisão. Em 15 de abril de 1976, Zuzu dirigia seu automóvel na cidade do Rio de Janeiro e sofreu um acidente em que morreu na hora. Também segundo testemunhas, o carro de Zuzu teria sido perseguido e fechado na saída de um túnel, que hoje tem o seu nome.

A história de Zuzu Angel e a sua incansável luta contra a ditadura nunca devem ser esquecidas. A força política da estilista fez com que a menina que juntava trapos entrasse para a história do Brasil.

 

Pedro Krause
Professor do Departamento de História do Colégio Pedro II
Doutor em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro

 Originalmente publicado na CHC 298


Luiza Mahin e a luta contra a escravidão

Ilustração Nato Gomes

A história de Luiza Mahin não é encontrada nos livros. Sabe-se que ela era a mãe do poeta, abolicionista e grande advogado brasileiro de sua época Luiz Gama. Assim como seu filho, ela é considerada uma das mais importantes personalidades da luta contra a escravidão no Brasil. A primeira vez que citaram o seu nome foi em uma carta escrita por seu filho a um amigo, em 1880. Nela, Luiz Gama escreveu que sua mãe era uma mulher livre, baixa, magra, natural da Costa da Mina, na África, e que recusou o catolicismo, mantendo-se fiel às suas crenças religiosas.

Luiz Gama diz, ainda, que Luiza era altiva, geniosa e vingativa. Dava a entender que era uma mulher forte, que lutava pelo que acreditava, suportava as derrotas e sabia cobrar dos adversários, quando estava correta.

Muito trabalhadora, Luiza Mahin era uma quitandeira, uma vendedora ambulante, e se comunicava muito bem com outras pessoas, libertas e escravas, da cidade de Salvador, na Bahia, onde morava. As mulheres quitandeiras eram figuras importantíssimas da época da escravidão. Além de garantirem o abastecimento de comida das cidades, vendendo os produtos para as pessoas, elas conheciam muita gente, trocavam ideias, ajudavam os escravos necessitados, auxiliavam nas suas fugas e rebeliões.

Isso explica como e por que Luiza Mahin possivelmente se envolveu nos levantes de escravos e libertos que lutavam contra a escravidão na Bahia.

Nas três primeiras décadas dos anos 1800, diversas revoltas dos negros escravizados e negros abolicionistas abalaram a elite baiana. A mais famosa delas foi a Revolta dos Malês, em 24 de janeiro de 1835. Malês era como se chamavam os africanos muçulmanos na Bahia (negros que cultuavam a religião islâmica). Grande parte das lideranças do movimento de 1835 era de malês. No entanto, esta revolta escrava foi mais ampla, envolvendo também integrantes do candomblé e de diferentes origens africanas. Tanto negros escravizados quanto negros libertos faziam parte. Isso porque a experiência de vida de todos era muito comum: racismo, dificuldades financeiras no trabalho de rua em Salvador, sofrimento no cativeiro etc.

O nome de Luiza Mahin não aparece em qualquer documento da época entre os presos pela Revolta dos Malês, apesar de algumas pessoas acreditarem que Luiza fez parte dela. Luiz Gama, seu filho, deixou registrado que, depois de outra revolta na Bahia, Luiza Mahin mudou-se para o Rio de Janeiro, nunca mais voltando para a Bahia. Na verdade, Luiza e os companheiros foram perseguidos por conta da sua religião. Uma hipótese é de que tenham sido mandados para fora do país, mas não se tem qualquer notícia do seu paradeiro. Luiz Gama procurou por sua mãe por toda sua vida, mas nunca a encontrou.

Luiza Mahin era como praticamente toda mulher negra, escrava do país: doava o seu amor aos filhos, tinha medo do cativeiro e dos castigos. Resistia bravamente. Era trabalhadora. Era incansável. Era símbolo de resistência. Chegou a vez de ouvirmos as “Mahins” do nosso país!

 

Pedro Krause
Professor do Departamento de História do Colégio Pedro II
Doutor em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro

 Originalmente publicado na CHC 299


Nesta edição, a CHC reuniu personalidades da história do Brasil que nem sempre receberam a devida importância. O que achou de conhecê-las? E que tal encontrar no jogo da memória os pares de imagens de cada uma delas?

 


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