TEXTO

A
A
A

Uma brasileira que se tornou rainha de Portugal

Você tem um nome comprido? Conhece alguém que tenha um nome bem grande, daqueles difíceis de decorar? O que acha de Maria da Glória Joana Carlota Leopoldina da Cruz Francisca Xavier de Paula Isidora Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga? Acha que inventamos? Que nada! Esse é o nome de uma princesa brasileira, a primeira filha do português Pedro de Bragança (o primeiro imperador do Brasil) e da austríaca Maria Leopoldina, que também era princesa.

O nascimento de Maria da Glória foi comemorado com sinos e uma salva de tiros no Rio de Janeiro. Mais tarde, ela seria rainha! Não do Brasil, mas de Portugal.

Reprodução

“Imediatamente quero comunicar a Viena que Dona Leopoldina deu à luz no domingo à tarde uma infanta, que tomará o nome de Maria-Glória. É-me completamente impossível descrever a alegria e o júbilo que a família real, todos os diplomatas, todo o povo sentiram”.

Essas palavras foram do embaixador da Áustria, que anunciou em seu país, no dia 4 de abril de 1819, a chegada da princesa brasileira – meio austríaca por parte de mãe e meio portuguesa por parte de pai – Maria da Glória.

O nome da menina foi uma homenagem à padroeira da Igreja Nossa Senhora da Glória, no Rio de Janeiro. Foi lá que Dona Leopoldina e Dom Pedro rezaram para ter uma criança com saúde.

D. Maria II_10_anos
D. Maria II, rainha de Portugal, aos 10 anos.
Thomas Lawrence, 1829/Wikimedia Commons

Maria da Glória viveu uma infância protegida na Quinta da Boa Vista, residência da família imperial. Certa vez, Dona Leopoldina escreveu à sua querida irmã Maria Luisa, que morava em Parma, na Itália:

“É sem dúvida um sentimento celestial ser mãe. Nossa filha é uma criança adorável e a perfeita imagem de meu esposo.”

E realmente Maria da Glória era uma menina especialmente linda, com talento musical e também para línguas. Ela recebeu muito carinho de seus pais e uma educação boa. Mas, mesmo sendo uma princesa, sua vida não seria muito fácil.

 

Despedida do Brasil

Maria da Glória tinha apenas sete anos quando Dona Leopoldina, sua mãe, faleceu, em dezembro de 1826. A pequena princesa teria de amadurecer muito cedo, porque muitas responsabilidades lhe esperavam.
D. Pedro, seu pai, casou-se novamente com D. Amélia Leuchtenberg-Beauharnais, em 1829. Dois anos depois, em 1831, o imperador, que vinha enfrentando muitos problemas políticos no Brasil, resolveu deixar o trono para seu filho Pedro II (que nem tinha completado seis anos de idade!). D. Pedro, então, retornou para Portugal com sua nova esposa e sua filha mais velha, Maria da Glória, que tinha então 12 anos.

 

Por trás da viagem

Na verdade, havia mesmo problemas políticos que fizeram D. Pedro passar o trono para o filho, mas havia também a vontade de governar Portugal. Entenda…
O pai de D. Pedro, o rei de Portugal D. João VI, morreu em 1826. Pela ordem, D. Pedro deveria ocupar o trono português. Mas, como já era imperador do Brasil, não poderia. Para manter o poder com sua família, D. Pedro foi a Portugal, declarou sua filha mais velha Maria da Glória como rainha (na época, com apenas sete anos!) e voltou para o Brasil, deixando seu irmão D. Miguel como regente do reino, algo como um rei substituto.
D. Miguel ocupou o cargo, mas achava injusto que ele próprio não fosse o rei de fato. Então, em 1831, quando D. Pedro decidiu retornar a Portugal e retomar o trono para Maria da Glória, as coisas não foram tão fáceis.
Os miguelistas – grupo de pessoas que defendia D. Miguel como rei – deixaram claro que D. Pedro e sua família não eram bem-vindos no país. Impedidos de entrar em Portugal, Maria da Glória, seu pai e sua madrasta seguiram para Paris, onde foram recebidos por Luis Filipe de Orleans, rei da França.

 

A chegada ao trono

Enquanto estava na França, D. Pedro planejou uma batalha contra seu irmão para reaver o trono português para Maria da Glória. Ele lutou, juntamente com os seus soldados, contra os miguelistas e venceu. D. Miguel foi para Évora, no sul de Portugal.

Maria da Glória pisou pela primeira vez em Lisboa, a capital portuguesa, em agosto de 1833. Dom Pedro, seu pai, faleceu um ano depois, em setembro de 1834. Imediatamente, Maria da Glória foi aclamada Rainha Maria II de Portugal. A menina, com 15 anos de idade, disse ao povo em seu discurso inaugural:

“Tudo o que eu fizer, eu quero fazer da melhor forma que estiver ao meu alcance.”

Já em março de 1835, Maria da Glória foi dada em casamento (isso mesmo, escolheram um noivo para ela, como era de costume na época) a Augusto Eugenio Napoleão, Duque de Leuchtenberg-Beauharnais. Ele era irmão de D. Amélia, a madrasta de Maria da Glória.

Retrato de D. Augusto, Duque de Leuchtenberg
G. Dury, c.1835/Wikimedia Commons

Mas ele faleceu apenas três semanas depois do casamento – ninguém sabe do quê.

A jovem rainha de Portugal, que deixou o Brasil com o coração partido por ter sido separada de suas irmãs e de seu querido irmão D. Pedro II, escreveu a ele dizendo:

“Fico sem consolação, meu adorado Augusto, meu louro príncipe morreu. Sinto-me incapaz de lhe descrever minha dor”.

 

Novo casamento

Para garantir a segurança do reino português, Maria da Glória foi rapidamente dada em casamento novamente, em janeiro de 1836. Desta vez, o príncipe consorte foi Fernando Augusto Francisco Sachsen-Coburg-Gotha. O casamento com D. Fernando, que tinha uma alma artística, foi feliz. Nos 17 anos em que viveram juntos, tiveram 11 filhos, dos quais apenas sete sobreviveram.

Durante os 19 anos do reinado de D. Maria II, ela tomou decisões importantes e duradouras, como a criação da lei de obrigatoriedade escolar para todos e a introdução da liberdade da imprensa, por meio da criação do jornal O País.

No seu reinado também foram fundados o Instituto de Cirurgiões e dos Farmacêuticos, o Instituto de Astronomia e o primeiro Banco do Portugal. Quando Franz Liszt, famoso músico e compositor húngaro, visitou Lisboa, em agosto de 1845, ela aproveitou a ocasião para criar uma escola de música. Além disso, foi cofundadora do Teatro Nacional e da Biblioteca Nacional.

Todas essas decisões de grande importância para Portugal foram tomadas por D. Maria II em um clima político muito difícil, de constantes protestos e batalhas. Mas ela sempre tentou o caminho do diálogo com aqueles que tinham ideias diferentes das suas, buscando soluções pacíficas para o país.

Retrato de D. Augusto
Retrato de D. Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha.
Joseph-Fourtuné Layraud, c. 1877/Wikimedia Commons
Retrato de D. Maria II, rainha de Portugal.
John Simpson, c. 1837/Wikimedia Commons

Rainha e mãe carinhosa

Além de ter se tornado uma figura política importante, D. Maria II foi também uma mãe dedicada, que supervisionava pessoalmente a educação de seus filhos. Por causa do casamento com D. Fernando, ela se tornou parente da rainha Vitória da Inglaterra, pois o marido da inglesa, Alberto, era irmão de D. Fernando.

Pelo contato com outros países, outras culturas, a rainha de Portugal achou importante que seus filhos aprendessem a se comunicar em inglês também. Para mostrar o que já sabiam do idioma, seus pequenos Pedro, Luís e João escreveram uma carta para a “titia” Vitória, em Londres, que dizia:

All what you need for a happy life: a little wealth, a little health, a little house in freedom, and at the end a little friend and a little cause to need him.”, que, em português, quer dizer:

“Tudo que você precisa para uma vida feliz: um pouco de riqueza, um pouco de saúde, uma pequena casa em liberdade e, no final, um amiguinho e um pequeno motivo para precisar dele”.

O que você acha? Concorda com eles?

 

Alma brasileira

Entre as muitas qualidades de Maria da Glória, estava a persistência em fazer o melhor possível. Ela sofreu muito com saudade e com a distância de sua amada pátria, o Brasil, e de seus irmãos. No entanto, ela nunca se queixava. Muitas vezes, as pessoas perguntavam de onde a rainha D. Maria II tirava força para cumprir a sua missão de forma tão disciplinada. Será que era do fato de ter passado os primeiros 12 anos de sua vida no Rio de Janeiro? Será que esta fase da vida a fortaleceu tanto emocionalmente, a ponto de prepará-la para cumprir de maneira exemplar as obrigações de rainha na sua nova pátria, Portugal?

Algumas pessoas acreditam que a saudade é um ponto dolorido na alma, mas é também uma poderosa fonte de energia. Deve ter sido assim com D. Maria II.

Maria II faleceu aos 34 anos, no dia 15 de novembro de 1853.

Nos livros de história, ficou conhecida como “D. Maria II, a boa mãe, a educadora”.

 

Gloria Kaiser
Historiadora austríaca
Correspondente da Academia de Letras da Bahia e do Instituto Histórico da Bahia

Originalmente publicado na CHC 298

Caixa de curiosidade CHC

Quem foram os 11 filhos de D. Maria II?

Pedro V, nascido em 16 de setembro de 1837
Luis I, nascido em 31 de outubro de 1838
Maria, nascida em 4 de outubro de 1840
João Maria Fernando, nascido em 16 de marco de 1842
Maria Ana, nascida em 21 de julho de 1843
Antonio, nascido em 17 de fevereiro de 1845
Fernando Maria Luis, nascido 23 de julho de 1846
Augusto, nascido em 4 de novembro de 1847
Leopoldo, nascido em 7 de maio de 1849
Maria da Glória, nascida em 3 de fevereiro de 1851
Eugenio Maria, nascido em 15 de novembro de 1853


Um pouco da história do lixo

Restos de comida, papel, plástico, metal, vidro, xixi… Tudo isso (ou quase tudo e mais alguma coisa) compõe o lixo que descartamos todos os dias. Mas onde é que esse lixo todo vai parar? Essa preocupação não é de hoje! Duvida? Então, vamos voltar um pouquinho no tempo, dar um pulinho no Rio de Janeiro de, mais ou menos, 100 anos atrás…

Ilustração Walter Vasconcelos

Na sua casa ou apartamento, há uma lixeira, um depósito aonde você acumula o lixo até que ele seja recolhido, certo? Mas, e depois? Você sabe para onde vai o lixo? Nos dias de hoje, dar o melhor destino ao lixo ainda é um desafio e tanto. Agora, imagina antigamente! No tempo em que o Rio de Janeiro foi a capital do Brasil e muita gente foi morar lá, entre 1763 e 1961, o acúmulo de lixo e a sujeira na cidade eram tão impressionantes que acabaram registrados em ilustrações dos pintores viajantes Johan Moritz Rugendas (alemão, que viveu entre 1808 e 1858) e Jean-Baptiste Debret (francês, que viveu entre 1768 e 1848).

Na época, o sistema de coleta de lixo – esse dos caminhões que passam hoje pelas ruas – nem sonhava em existir. Sabe o que as pessoas faziam? Ou enterravam o lixo em seus quintais ou despejavam em terrenos baldios, nas ruas e nos rios. Existiam também os vazadouros, algo parecido com os lixões, muito deles (acredite!) nas praias!

 

Quem carrega o lixo?

Nesse lixo despejado pela cidade havia de tudo: entulho, corpos e carcaças de animais mortos, entre outras coisas fedorentas. Mas havia também um lixo especialmente nojento: barris com sobras de água suja, fezes e urina – sim, naquele tempo as casas não tinham esgoto, e tudo isso seguia para os vazadouros.

Mas, espere um momento: quem carregava o lixo? Você sabe que a abolição da escravatura ocorreu apenas em 1888 e que, por um longo período no Brasil, tivemos pessoas escravizadas, certo? Pois os negros escravizados é que eram obrigados a carregar os barris de excrementos.

Escravo com barril de dejetos, Rio de Janeiro, século 19.
Obra O colar de ferro, castigo dos negros fugitivos, Debret.

Somente, a partir da proclamação da Independência do Brasil, em 1822, parte do transporte do lixo passou a ser feito por carroças do governo ou de particulares. Essas carroças eram puxadas por cavalos, bois ou por negros escravizados.

Em 1853, foi aprovado na Câmara Municipal um projeto de regulamentação de transporte de lixo para excluir definitivamente os escravos dessa função. O lixo, acomodado em barris fechados, passava a ser recolhido por carroças.

O recolhimento parecia mais organizado, mas o problema de “o que fazer com o lixo” continuava!

 

Ilha de lixo

Você deve saber que o lixo atrai muitos animais transmissores de doenças, como os ratos. Tem também o problema de que, quando o lixo se decompõe, se dissolve, parte se transforma em um líquido chamado chorume. Esse líquido contamina o solo e a água.

Em 1865, numa tentativa de afastar da cidade o problema do lixo, foi criado o vazadouro (lixão) da Ilha de Sapucaia. Sim, uma ilha inteira se destinou a receber o lixo do Rio de Janeiro. Barcos recolhiam os resíduos depositados nas pontes de descarga espalhadas pela cidade e navegavam até a Ilha de Sapucaia, onde jogavam tudo.

Uma parte do lixo era queimada dentro de uma fornalha, e o restante ficava a céu aberto. A Ilha de Sapucaia permaneceu sendo o principal vazadouro de despejo do lixo da cidade até 1949. Hoje, ela não existe mais – foi interligada a outras ilhas, formando a Ilha do Fundão.

 

Muito lixo, pouca saúde

O século 19 foi marcado por grandes mudanças na cidade, especialmente no que dizia respeito à higiene pública. Nas escolas de medicina, os estudantes não se contentavam apenas em se formar para combater doenças e cuidar de seus pacientes, pensavam em soluções de saúde para evitar as doenças e, para isso, atuavam para além das paredes dos hospitais: o território a ser controlado era a cidade.

Com a descoberta, na segunda metade do século 19, de que as doenças poderiam ser transmitidas pelo ar, por meio de micróbios, a preocupação com o lixo aumentou. Os governantes decidiram seguir o que diziam os estudiosos e levaram a sério o problema do lixo.

Em 1892, a prefeitura passou a recolher e transportar o lixo, e se comprometeu a criar um complexo de incineração. O que é isso?!? Incinerar é queimar. Logo, o que a prefeitura fez foi contratar uma empresa para construir vários fornos. Eles tinham capacidade de incinerar 400 mil quilos de lixo por dia.

 

Lixo no forno

O Complexo de Incineração de Lixo Urbano, como foi chamado o conjunto de fornos da prefeitura, tinha a chaminé mais alta do Rio de Janeiro: com cerca de 75 metros de altura. Ele foi construído numa antiga fazenda, onde hoje fica o bairro de Manguinhos. Na época, o bairro era bem distante da parte da cidade onde havia maior concentração de pessoas.

Mas a cidade crescia, e o grave problema da limpeza urbana permanecia. Na década de 1920, surgiram propostas de criação de novos fornos de incineração, com tecnologia mais moderna, para serem espalhados em outros pontos da cidade, no entanto não foram construídos.

Construção do Hospital Oswaldo Cruz, em Manguinhos (1912). Ao fundo, a chaminé dos fornos de incineração de lixo.
Foto J. Pinto/Acervo Casa de Oswaldo Cruz

Em 1922, os fornos de Manguinhos foram desativados, provavelmente porque a sua tecnologia ficou ultrapassada. O terreno onde funcionavam agora pertence à Fundação Oswaldo Cruz, a Fiocruz – um dos principais centros de pesquisa em saúde do Brasil.

Em 2013, durante uma obra para construir uma nova unidade de pesquisa na Fiocruz, foram encontrados, por arqueólogos, ruínas de uma antiga chaminé do conjunto de fornos que ali funcionava. O terreno em que vestígios arqueológicos são descobertos é denominado sítio arqueológico, um local onde ficam preservados vestígios de um passado histórico.

Os vestígios da antiga chaminé do Complexo de Incineração de Lixo de Manguinhos foram preservados e poderão, em breve, ser visitados, ajudando a contar sobre a história da saúde nas cidades e a refletir sobre a cultura do descarte do lixo nos dias de hoje.

 

Inês El-Jaick Andrade
Departamento de Patrimônio Histórico,
Casa de Oswaldo Cruz, Fundação Oswaldo Cruz

Éric Alves Gallo
Programa de Pós-graduação em Preservação e Gestão do Patrimônio Cultural das Ciências e da Saúde,
Casa de Oswaldo Cruz, Fundação Oswaldo Cruz

Originalmente publicado na CHC 297

Caixa de curiosidade CHC

Você sabe de onde vem o termo ‘gari’?

Em 1873, uma empresa particular foi contratada pelo Ministério Imperial para realizar os serviços de limpeza do Rio de Janeiro. Os funcionários da empresa que realizavam a limpeza passaram a ser chamados “gari”. A origem da palavra vem da referência ao dono da empresa, o francês Aleixo Gary. O contrato dessa empresa acabou em 1892 e, em seu lugar, foi criada a Superintendência de Limpeza Pública e Particular da Cidade. Em homenagem a esses trabalhadores – homens e mulheres – que fazem a coleta de lixo das casas, varrem e limpam as ruas da nossa cidade, é comemorado o Dia do Gari em 16 de maio.


13 de maio ainda seria data para celebrar?

Em 13 de maio de 1888 foi assinada Lei Áurea, documento que acabou oficialmente com a escravidão no Brasil. Por muitos anos, a data foi considerada feriado, com direito a comemorações em várias cidades pelo país, principalmente no Rio de Janeiro. Mas o tempo passou e os afrodescendentes não viam mais nessa data um motivo de comemoração, afinal de contas, ficava a falsa impressão de que a Princesa Isabel, exclusivamente por sua vontade, teria dado a liberdade aos negros escravizados. Por que falsa impressão? Vale a pena saber um pouco mais sobre essa história!

Era um domingo de sol, à tarde, quando uma multidão ocupou o Largo do Paço, no centro do Rio de Janeiro, à espera do grande evento: a assinatura da lei que acabaria com a escravidão. A princesa veio de Petrópolis, especialmente para essa assinatura, e utilizou uma caneta cheia de diamantes, comprada através de uma ação coletiva (uma espécie de “vaquinha” dos dias de hoje) promovida por um professor de matemática. Ele conseguiu que mais de três mil pessoas doassem uma pequena quantia, uma forma de outras pessoas também participarem do ritual da assinatura da lei.

Comemoração no Paço, após a assinatura da Lei Áurea.
Foto Antonio Luiz Ferreira/Wikipédia

A data do 13 de maio de 1888 era o fim de uma antiga batalha de diferentes pessoas. Por que antiga? Porque, desde que a escravidão passou a existir, sempre houve escravizados resistindo e buscando a liberdade.

Antes da Lei Áurea, escravos, ex-escravos e seus descendentes – apoiados por alguns jornalistas, escritores, políticos, advogados e religiosos que eram a favor da abolição – conseguiram apoio para aprovar outras leis para reduzir a presença da escravidão, como a que determinava o fim do tráfico de negros da África para o Brasil, a que libertava as crianças nascidas de mãe escrava a partir de 1871 e a que também considerava livres os escravizados com mais de 60 anos, esta de 1885.

Mas era preciso uma lei mais específica para colocar um ponto final definitivo na escravidão e, em 1888, todos aqueles que já estavam na luta pela abolição conseguiram mais e mais apoiadores por todo o Brasil. Foi assim que veio a Lei Áurea.

O processo para aprovação dessa lei durou poucos dias: três discussões na Câmara dos Deputados e mais algumas no Senado, sendo a última no próprio domingo, 13 de maio, feita na parte da manhã. De tarde, a Princesa Isabel assinou no documento oficializando o fim da escravidão.

A multidão que ocupava o Largo do Paço comemorou muito, é claro. E a história deu mais valor à assinatura da lei pela princesa do que à organização dos abolicionistas para conquistar o fim da escravidão.

Sessão do Senado em que se aprovou a Lei Áurea.
Foto Wikipédia
Missa Campal pela Abolição da Escravatura no Brasil (detalhe).
Foto Antonio Luiz Ferreira/Wikipédia

Depois da liberdade

O número de negros escravizados libertados pela Lei Áurea é incerto, porque muitos “senhores” se anteciparam e libertaram seus escravos às vésperas da abolição, na esperança de mantê-los em suas propriedades com contratos de trabalho. Ainda assim, alguns pesquisadores falam em torno de 500 mil libertados pela lei, um número pequeno diante da quantidade de escravos que o Império do Brasil tinha décadas antes.

Mesmo assim, a lei causou uma profunda mudança na sociedade do Império. O fim da escravidão afetava a economia, porque os donos de terras, que usavam mão de obra escrava em suas plantações (especialmente nas de café, principal produto que o Brasil vendia aos outros países) teriam de pagar para as pessoas trabalharem para eles. Da mesma forma, afetava a organização social, uma vez que os homens e mulheres escravizados, que faziam trabalhos dos mais variados, principalmente nas cidades, não precisariam mais fazê-los.

Não há dúvida do impacto da abolição na economia e na sociedade, mas essa medida não previu nada além da liberdade. Ou seja, não indenizou os senhores – sim, os “donos de escravos” queriam que o governo pagasse a eles pela mão de obra que estavam perdendo. Também não indenizou os escravos pelos anos de trabalho forçado e por todas as dores sentidas no corpo e na alma.

Após as inúmeras festas que ocorreram pela cidade do Rio de Janeiro, sede do Império, pela abolição, os debates políticos eram para que houvesse uma lei que obrigasse esses libertos a trabalhar, já que muitos deputados acreditavam que eles não estariam dispostos ao trabalho.

Na verdade, o que se viu na cidade e no campo foi a continuidade da atividade desses trabalhadores, anteriormente escravizados. No ano seguinte, o Império acabou, veio a República, também sem propostas que pudessem transformar a vida dos ex-escravos e seus descendentes.

 

13 de maio ou 20 de novembro?

O Brasil foi o último país independente, do continente americano, a abolir a escravidão em seu território. Diante das poucas mudanças que o 13 de maio trouxe para os ex-escravos e seus descendentes, a data foi perdendo o seu brilho.

Para aqueles que continuam na luta pela igualdade de condições entre negros e não-negros na sociedade brasileira, parece fazer mais sentido o Dia da Consciência Negra, comemorado em 20 de novembro. Esta é a data em que morreu Zumbi dos Palmares, negro que lutou pela liberdade de seu povo e foi líder do maior quilombo (centro de refúgio de escravos) brasileiro, o Quilombo dos Palmares, no interior de Pernambuco. A imagem de resistência de Zumbi alimenta muito mais os sonhos de justiça e igualdade do que a imagem de benfeitora dada à Princesa Isabel.

A Lei Áurea.
Acervo Arquivo Nacional
Monumento em homenagem a Zumbi dos Palmares, no Rio de Janeiro.
Foto Halley Pacheco de Oliveira/Wikimedia Commons

Na prática, não havia outro modo de a escravidão acabar se não fosse através da Lei Áurea. Além disso, o 13 de maio foi, no seu tempo, a grande conquista daqueles que lutaram pela abolição, entre eles, escravos, ex-escravos e seus descendentes diretos. Isso pode nos fazer considerar que tanto o 13 de maio, quanto o 20 de novembro servem para pensar e representar as lutas atuais: pela liberdade vinda por meio da Lei Áurea, resultado de uma pressão da sociedade e resistência dos escravizados e da luta de séculos antes da abolição; pela união, simbolizada pelos negros que se reuniam no Quilombo de Palmares, que tinha Zumbi como líder. O que você acha?

 

Renata Figueiredo Moraes
Departamento de História do Brasil,
Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Originalmente publicado na CHC 299

Relacione cada item com a figura correspondente


Abolicionistas negros, quais você conhece?

Abolir é anular, extinguir, colocar um ponto final. Logo, abolicionistas são pessoas que desejam colocar um ponto final em alguma coisa ou em alguma história, concorda? A história do Brasil é marcada por um movimento abolicionista muito importante: o da escravatura. Sempre ouvimos falar que quem aboliu o trabalho escravo foi a Princesa Isabel, ao assinar a Lei Áurea. Mas é importante saber que o fim da escravidão é resultado da insatisfação e da luta dos próprios negros escravizados e de seus descendentes. E quem fala sobre esses personagens? A CHC! Que foi buscar um pouquinho da história de alguns deles para contar a você!

Ilustração Mariana Massarani

Estevão Roberto da Silva

Nasceu no Rio de Janeiro, em 1844. Pelos poucos registros existentes, seu pai e sua mãe eram africanos, trazidos para o Brasil como escravos. Estevão foi professor do Liceu de Artes e Ofícios no Rio de Janeiro e pintor premiado. Também foi presidente da Sociedade Cooperativa da Raça Negra, uma organização fundada em 8 de abril de 1888, por um grupo de 15 homens negros. Pensando no que ia ser da vida dos ex-escravos depois da abolição, a organização anunciava ter planos para combater o desemprego, promover a educação (a maior parte da população negra não sabia ler), entre outros direitos e benefícios para os libertos.

José do Patrocínio

Ele nasceu no Rio de Janeiro, em 1853. Foi jornalista e escritor, membro fundador da Academia Brasileira de Letras. Era filho de um padre com uma escrava e, desde cedo, testemunhou maus-tratos e castigos aos negros escravizados da fazenda onde morava. Essa experiência, certamente, despertou o abolicionista que existia nele. Fundou a Gazeta de Notícias, jornal que defendia a liberdade dos negros, e iniciou, em 1879, uma campanha pela abolição. Fez contato com outros abolicionistas de diferentes estados do Brasil, espalhando a ideia da abolição como fundamental para o desenvolvimento do país.

Maria Firmina dos Reis

Ela nasceu em São Luís, no Maranhão, em 1822. Nos seus documentos, há apenas o nome da mãe, Leonor Felipa dos Reis, uma ex-escrava. Do convívio com um primo de sua mãe, que era escritor, Maria Firmina logo se interessou pelas letras. Foi professora e é considerada a primeira escritora brasileira. Publicou várias obras, entre elas o romance Úrsula, em 1859, e o conto A Escrava, em 1887, que denunciava os maus-tratos aos escravos e defendia a sua liberdade. Era também compositora, e escreveu o Hino da abolição dos escravos.

Francisco José do Nascimento

No Ceará, a libertação dos escravos aconteceu em 1883, antes da oficialização da abolição nacional, que aconteceu em 1888, com a assinatura da Lei Áurea. Um dos responsáveis por essa iniciativa foi Francisco José do Nascimento, nascido em 1839, na cidade cearense de Canoa Quebrada. Francisco era jangadeiro, um homem do mar, que impediu o tráfico de escravos no litoral da sua cidade. Por liderar o movimento abolicionista entre seus colegas de profissão, ganhou o apelido de Dragão do Mar. Outro apelido de Francisco era Chico da Matilde, em referência à sua mãe Matilde Maria da Conceição, negra, que trabalhava como rendeira. Seu pai era um pescador português que morreu quando Francisco era ainda criança.

André Rebouças

André Rebouças nasceu em 1838, era baiano, da cidade de Cachoeira. Filho de um homem negro, um advogado de grande prestígio na época, André teve oportunidade de estudar em bons colégios. Quando a família se mudou para o Rio de Janeiro, capital do Império, ele se formou em Ciência Física e Matemática. A partir de 1880, tornou-se apoiador da causa abolicionista e participou da criação de várias organizações antiescravistas. Foi autor do projeto Docas Dom Pedro II, em 1871, e no contrato para realizar a obra colocou como condição que nessa construção não se utilizasse trabalhadores escravizados. Além disso, ele era a favor dos imigrantes, que chegavam de fora do Brasil para trabalhar nas lavouras, mas tinham tratamento desigual, recebendo apenas o suficiente para não morrer de fome.

Adelina, a charuteira

Adelina nasceu no Maranhão, em 1859. Era filha de um branco, senhor de escravos, e de uma escrava. Ganhou o apelido de charuteira quando começou a ajudar o pai na venda de charutos pela cidade. Boa vendedora, Adelina conhecia muita gente, o que facilitou seu trabalho a favor da liberdade dos negros escravizados. Vendia seus charutos para estudantes abolicionistas e, com isso, ajudou a criar o Clube dos Mortos, um grupo de pessoas que facilitava a fuga dos escravos.

Luís Gama

Luís Gonzaga da Gama foi escritor e usava outros nomes – Getúlio e Barrabaz – para escrever sobre a liberdade dos escravos. Ele nasceu em 1830. Filho de Luísa Mahin, negra africana livre, envolvida em revoltas de africanos na cidade de Salvador, e de um português, Luís Gama foi vendido como escravo pelo próprio pai. Na casa em que foi trabalhar como escravo, era encarregado dos serviços domésticos, onde teve os primeiros contatos com a leitura, até fugir de seus “senhores”, aos 17 anos. Mais tarde, conseguiu documentos que provavam que sua mãe era livre, por isso, pelas leis da época, ele não poderia ser considerado um cativo, isto é, um escravo. Em 1859, publicou Primeiras provas burlescas, livro em que tratava do preconceito de cor na sociedade brasileira. Luís se formou em Direito e trabalhou como advogado, defendendo negros escravizados gratuitamente. Foi responsável por mais de 500 alforrias, documento que provava a liberdade de uma pessoa escravizada.

Fotos Wikipédia/Ilustrações Nato Gomes

Cathia Abreu
Instituto Ciência Hoje

Monica Lima
Laboratório de Estudos Africanos,
Instituto de História,
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Originalmente publicado na CHC 299

Forme pares e conheça alguns abolicionistas negros


A luta de Soweto

Esta história é verdadeira e se passa na fria manhã de 16 de junho de 1976. O inverno se aproximava. Mas os milhares de jovens que se preparavam para marchar pelas ruas de Soweto, na África do Sul, não se importaram. A sensação de estarem juntos nas ruas, exigindo uma educação de qualidade e em busca de respostas às suas perguntas e problemas, era um incentivo, um calor em seus corações. Cheios de coragem, naquela manhã, eles lutaram como nem eles próprios sabiam que poderiam lutar.

Ilustração Walter Vasconcelos

Na África do Sul dos anos 1970, o apartheid (lê-se ‘apartáid’) ainda existia. Apartheid foi uma política racial oficializada no país em 1948. Essa política obrigava a separação de pessoas pela cor da pele em todas as áreas de suas vidas: públicas e privadas. O direito de votar, por exemplo, era exclusivo das pessoas consideradas brancas – que representavam somente cerca de um quinto da população. Também era exclusividade dos brancos fazer parte do governo, da administração, da justiça e do exército. E mais: somente os brancos tinham direito a empregos qualificados, a melhores salários, a viver nas cidades, a circular livremente pelo país e a receber educação de qualidade.

Mapa Marina Vasconcelos

Para a outra parte da população, considerada negra e que era em maior número (quatro quintos da população), esses direitos eram proibidos.

Como resultado dessa separação entre brancos e negros, dessa segregação racial, muitas famílias negras se estabeleceram perto de cidades brancas. Procuravam oportunidades de trabalho, porque estavam desempregadas no campo. Soweto, nos arredores de Joanesburgo (a mais rica cidade do país) era o maior município habitado por negros. Mas era difícil chamá-la de “cidade”.

Em Soweto faltavam muitos dos serviços que compõem uma cidade.
Foto Wikimedia Commons

Soweto dos negros

Soweto tinha mais que o dobro da população de Joanesburgo, mas faltavam muitos dos serviços que compõem uma cidade. O sistema de transporte público era ruim, havia pouco comércio, poucos locais de lazer e raros postos de trabalho. Havia somente um hospital, escolas primárias e secundárias – ou de Ensino Fundamental e Médio, como dizemos hoje no Brasil.
No apartheid da África do Sul, todo o sistema educacional também era separado e desigual para negros e brancos. Foi o governo branco que elaborou o currículo para todos e nomeou seus professores e professoras. As escolas dos brancos tinham boas instalações, bibliotecas e campos esportivos e eram públicas, ou seja, eram gratuitas. Já os pais das crianças negras tinham que pagar para que seus filhos pudessem estudar. Isso não estava nada bom…

Revolta

Em meados da década de 1970, o apartheid começava a ser desafiado. A África do Sul não estava em um bom momento econômico, com grande parte da população desempregada e sem direitos. Além disso, países vizinhos, como Angola e Moçambique, se tornaram independentes, o que fez brotar uma esperança nos sul-africanos de colocar um fim no regime de separação racial em que viviam. Outro ponto importante é que, no interior do país, o novo e ativo Movimento da Consciência Negra cresceu e conquistou as cabeças e os corações dos jovens. Esse movimento, nascido entre jovens negros que não concordavam com o apartheid, tinha como líder o estudante Steve Biko, que argumentava que ser negro não era um estigma, uma marca ruim, mas um motivo de orgulho.

Steve Biko, líder dos estudantes.
Foto Wikimedia Commons

Em meio a esses acontecimentos, o governo decidiu que as escolas secundárias negras (as que chamamos de Ensino Médio) deveriam usar o africâner e o inglês como línguas de ensino.  Mas nem os jovens, nem seus responsáveis foram consultados. Eles preferiram manter o uso somente do inglês, uma língua que consideravam mais útil para entrar no mundo do trabalho. Para eles, o africâner era uma linguagem do governo e não lhes representava.

Foi para protestar contra essa e outras regras que consideravam injusta que os jovens, adolescentes com idade entre 13 e 18 anos, se organizaram em suas escolas para exigir mudanças. No dia 16 de junho de 1976, eles se juntaram, eram cerca de 10 mil estudantes, para fazer uma manifestação pacífica. Enquanto marchavam e cantavam, a polícia reagiu violentamente e começou a atirar na multidão. Os jovens corriam pelas ruas de Soweto para se proteger. Os distúrbios continuaram por três dias seguidos, resultando em muitas mortes, feridos e prisioneiros.

 

A luta se espalhou

Nos meses seguintes, as reivindicações aumentaram e ganharam força, com os jovens defendendo que a educação era um dever do governo. Rejeitavam o africâner e também toda a educação que recebiam, além do apartheid como política. Gritavam em junho “fora africâner”. Em agosto “ao diabo o apartheid”.

O rádio e os jornais não mostravam a luta dos jovens. Mesmo assim, ela ganhou as ruas, as cidades e outras partes do país. As escolas e universidades da Cidade do Cabo e de outras cidades vizinhas acompanharam os protestos. O governo cedeu e decidiu adiar a validade do uso de africâner nas escolas. Mas continuou a perseguição dos jovens negros nas escolas. Foi criada uma comissão especial para apurar os fatos: 575 mortes e milhares de feridos foi o resultado da luta.

 

Mudanças

A revolta dos jovens provocou muitas mudanças.  A partir de 16 de junho, a vida nunca mais seria a mesma na África do Sul, nem para negros nem para brancos. A história tomou novo caminho. O governo do apartheid percebeu que a grande maioria da população havia perdido o medo e a inocência.

A marcha pacífica dos estudantes pelas ruas de Soweto.
O corre-corre dos estudantes durante os ataques da polícia.
Fotos South African History Archive (SAHA)

Os idosos passaram a se sentir desafiados por seus filhos a não aceitar viver em um sistema que os isolava e resolveram rever seus direitos. Os jovens negros (e os brancos que queriam viver em um país melhor) sentiram uma força renovada para construir um futuro para si mesmos.

Sem dúvida, os jovens, que em uma manhã fria de junho fizeram suas exigências, iniciaram uma nova etapa na história da África do Sul. Deram o primeiro passo na construção de uma sociedade democrática e mais justa.

 

Marisa Pineau
Departamento de Historia,
Instituto de las Culturas,
Universidad de Buenos Aires

Originalmente publicado na CHC 299

Organize a imagem e descubra onde fica Soweto


Especial

História e Geografia

Volume 2

Especial

História e Geografia

Volume 2