TEXTO

A
A
A

Poemas

Haicais são poemas compostos por três frases
No Japão, são chamados Haiku
São como esses, só de bichos, de Sidnei Olívio*

*Sidnei Olívio é Biólogo, especializado em Biologia Geral pela Universidade Estadual de São Paulo e pelo Centro Universitário de Votuporanga. Sua paixão pela natureza deu muitos frutos: organizou feiras artísticas, saraus e oficinas de leituras Brasil afora. Autor de 10 livros, suas poesias são uma verdadeira homenagem aos animais e o meio ambiente.


Néctar

A abelha zune

sobre as flores, dança louca

e traz o mel no céu da boca

Ilustração Walter Vasconcelos

Zoeira

O besouro zumbe

um elétrico zumbido

dá zoeira no ouvido

Ilustração Marina Vasconcelos

Fábula

A cigarra canta

sem preocupação

pois cantar é sua missão

Ilustração Cavalcante

Ciclo vital

Lenta e desatenta

a lagarta alimenta

o ninho de andorinhas

Ilustração Mariana Massarani

Natureza viva

Na haste da rosa seca

paira indecisa

borboleta

Ilustração Marcelo Badari

Draculiforme

A sanguessuga o sangue suga

parente da minhoca

um vampiro sem dentes

Ilustração Marina Vasconcelos

O bicho-pau

Parece um graveto o bicho-pau

escondido nas árvores, quase pasma

esse inseto “fantasma”

Ilustração Marcelo Pacheco

Tecelãos

Da seda, o labor

a dois… bem qualificado:

bicho e tecedor.

Ilustração Marcelo Pacheco

Tecelãos (parte 2)

Do casulo de seda

o fio do infinito

tecendo calor

Ilustração Marcelo Pacheco

Polinização

Começo da primavera

As flores favorecem

A tarefa dos insetos

Ilustração Jaca

E agora, passamos dos haicais aos versos da poesia de Paulo Robson de Souza*.

Seus poemas falam de quê?

De bichos também! Todos eles in-ver-te-bra-dos!

*Paulo Robson de Souza é licenciado em biologia pela Universidade Federal do Espírito Santo. Especializou-se em meio ambiente pela Universidade de São Paulo e pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, onde atua como professor de Biologia. É também escritor e, junto com Sidnei Olívio, criou muitos poemas e histórias sobre animais, além de ser autor outros livros que trazem a natureza com estrela principal.


Metamorfoseando

Que bicho é este que causa espanto…

Que bicho é este que causa encanto…

 

Que bicho é este que se arrasta,

Que bicho é este, de canudinho…

Do corpo mole, da asa gasta

Tão esquisito e tão… fofinho!

 

É a taturana…

É a borboleta…

Ilustração Mariana Massarani

Bolachas!

Coisinha engraçada esse bicho achatado e espinhento

chamado bolacha-do-mar!

 

Dentro d’água, dentro da areia, 

a fazer cosquinha nos meus pés

e com a areia que a onda lhe cobre

até parece aquelas broas com açúcar

de confeitaria.

Com seus espinhos miúdos,

boca voltada pro fundo,

não sabe se é um ouriço que se achatou

ou uma estrela arrependida

que caiu de outro mundo

e no mar se espatifou.

 

Uma quase bolacha

quase comida.

Quase nada sabe. Aliás,

só sabe

que é vida.

Ilustração Marcelo Badari

O tatuzinho

Ele anda pela terra e se enrola

Quando ponho o meu dedo

No seu corpo sanfonado

 

Coceguento como quê

Vira as pernas para cima

As antenas estremecem

O ar

Para cheirar

Tatuzinho-de-jardim

Também é bola

Também é bola

Quando me enrola

Ao se enrolar…

Ilustração Marcelo Pacheco

Caramba! carambola?

Parece uma carambola, mas só na forma.

Bichinho iluminado — mas não é norma!

Balofo e transparente, parece uma medusa

E pra poder nadar, “mil” cílios usa.

 

Os cílios formam pentes extraordinários

E vive em alto-mar e no estuário.

Parece um “molenga”, mas é eficaz

“Terror” de todo o plâncton, caçador voraz.

Caramba! Carambola?

 

Carambola-do-mar

Água-viva-de-pente

Ctenóforo

São os nomes

Desse incrível animal.

Ilustração Walter Vasconcelos

A pequenina das frutas

Olhos vermelhos da pitanga

Língua macia de lamber

Os veios da moranga

Barriga cor de banana

Asas de frutas

Sob o arco-íris

A doçura da manga

Drosófila! Nome poético

(Poderia ser nome

Da minha cachorrinha).

 

Mosquinha-da-fruta…

Ilustração Marina Vasconcelos

Valsa da formiga

Qual será, do mundo, o animal mais forte,

que sua própria sorte

pode sustentar?

 

Que mistério é esse?

– erguer um colosso

por sobre o pescoço

sem se esforçar?

Um pequeno inseto

que, magro ou obeso,

dez vezes o seu peso

pode levantar…

 

A formiga vence

proporcionalmente,

qualquer oponente

que lhe enfrentar?

Ilustração Marcelo Badari

A senhora dos rastros

Não me jogue sal

Que não sou jabá

Não me jogue sal

Pois vai me secar…

Não me jogue sal

Que eu não sou bacalhau!

Não me pise, não me canse

Que nada faço por mal

Não maltrate, não me impeça

De ter minha vida mansa…

 

Não me jogue sal…

Ilustração Mariana Massarani

A senhora dos rastros (segunda parte)

Ao andar eu deixo um rastro

Para lembrar aos passantes:

Eu sou um astro!

Dizem até que eu sou linda

E tenho até uma conchinha

Lá bem dentro, escondidinha…

E sou muito quietinha!

Não me alastro…

Devagar vou lhe dizendo:

Eu não sou emplastro!

 

Não me jogue sal!!!

Ilustração Mariana Massarani

Dois escorpiões

No céu,

Na terra

Debaixo do pó

 

Ferrão

Do rabo

Aplica sem dó

 

O pouco veneno

Tão eficiente

Na carne da presa

Para o bem do ambiente

 

No céu é de estrelas gigantes e quentes

Na terra é bichinho muito resistente

 

Grande caçador

É o escorpião!

Ilustração Marcelo Badari

Mormaço

O mormaço me amolece

faz o grilo cricrilar

faz o tempo até parar

na madeira que fenece.

Ilustração Walter Vasconcelos

O cupinzeiro

Todo cupinzeiro

Parece um pequeno reino.

 

Parece um castelo:

Tem rainha, tem soldados,

E tem também operários…

Até janelinha, fosso

E escadas parece ter.

Cupinzeiro abandonado

É a casa de muitos bichos:

Aves e preás,

Cobras e lagartos…

Papa-vento, a lagartixa,

Com sua pele de lixa,

Morando em seus calabouços,

Parece uma bruxa. (…)

 

Quando chove, é um espanto!

Os cupins, em revoada,

Dançam sob o arco-íris

Como uma cena de filme…

Ilustração Marina Vasconcelos

Os poemas de Sidnei Olivio e Paulo Robson de Souza selecionados pela CHC para esta edição especial foram retirados do livro “Poesia INvertebral: nicho semiótico” (texto em português com tradução paralela em inglês), editora JulienDesign (2019).


Especial

Língua Portuguesa

Volume 1

Especial

Língua Portuguesa

Volume 1