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Alimentos coloridos: seguros ou perigosos?

Amarelo, verde, azul… Os corantes dão uma aparência encantadora e apetitosa aos alimentos. Podem ser naturais ou artificiais. Mas será que podemos comer sem preocupação?

Quem tem uma cor favorita de jujubas levanta a mão! E quem resiste àquelas pastilhas coloridas recheadas de chocolate? E os bolinhos cobertos com pasta americana de todas as cores servidos nas festas, você aceita ou não?

Nós, seres humanos, somos muito mais estimulados pelas informações que recebemos através da visão do que pelos outros quatro sentidos (audição, tato, paladar e olfato). Por isso, muita gente diz que, antes de comer com a boca, comemos primeiro com os olhos!

Mas você sabe o que dá cor aos alimentos? Os corantes! E será que comer corante é seguro?!?

Ilustração Walter Vasconcelos

Os corantes têm sido usados em alimentos desde a Antiguidade, ou seja, há mais de seis mil anos! Por muito e muito tempo existiam apenas os corantes naturais, quer dizer, extraídos de plantas, animais e minerais – acredite!

Quer conhecer alguns corantes naturais com origem nas plantas? Pois tem a canela, que dá uma cor amarronzada aos alimentos; o urucum, uma semente que de cor avermelhada; e o curry, que deixa os alimentos com uma cor amarelada.

Urucum
Foto Eric in SF/Wikimedia Commons
Canela
Foto Thiry/Wikimedia Commons

Pouca gente sabe que existem também corantes naturais obtidos de animais. O vermelho carmim, aquele vermelho bem vivo, por exemplo, é extraído de um inseto chamado cochonilha. Menos gente ainda desconfia que alguns corantes vêm de minerais, como o dióxido de titânio, que deixa tudo mais branco, e o hidróxido de ferro, que tem coloração amarela ou vermelha.

Urucum
Foto Eric in SF/Wikimedia Commons
Óxido de ferro
Foto Benjah-bmm27/Wikimdia Commons

 

Cochonilha.
Foto Camarazevedo/
Wikimedia Commons

E os corantes artificiais?

Nos últimos 100 anos a indústria de alimentos avançou muito, surgiram muitas novidades e, entre elas, os corantes artificiais ou sintéticos. Eles são criados em laboratório e servem para tornar o alimento visualmente mais atraente e reforçar as cores já presentes nele. Mas por que usar corantes artificiais?
As indústrias sabem que um produto sem cor fica sem graça e os consumidores nem olham. Por isso, adicionam corantes para chamar mais a atenção, dando aquela impressão de que são bem gostosos, para vender mais. Além disso, os corantes artificias são mais baratos e mais estáveis do que os naturais, isto é, não perdem a cor rapidamente. Por tudo isso, o uso de corantes sintéticos aumentou muito nos últimos 50 anos e o consumo pelas pessoas também.

 

Perigo colorido?

Diversas pesquisas têm sido feitas nos últimos anos para entender os possíveis efeitos tóxicos dos corantes artificiais nos alimentos. Mas os resultados até agora são muito contraditórios. Ou seja: em alguns estudos não foram observados qualquer tipo de efeito tóxico após as pessoas comerem produtos industrializados contendo corantes artificiais; em outros, porém, o consumo desses corantes levou ao desenvolvimento de diversos tipos de reações alérgicas, tanto na pele, quanto no sistema respiratório e no intestino.
Há também registros de pessoas com dores de cabeça, insônia e dores nas articulações por consumir de corantes artificiais. O mal-estar geral provocou preocupações com relação à saúde, principalmente em crianças, que são as que mais se deixam levar pela aparência colorida de balas, bebidas artificiais e outros alimentos.

 

Pode ou não pode?

Há países, como a Suécia e a Noruega, que não permitem qualquer tipo de corante artificial nos alimentos. No Brasil são permitidos somente onze tipos de corantes artificiais em alimentos. Aqui, quem diz para as indústrias qual corante pode ou não pode e em que quantidade é a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa.

Os corantes permitidos no Brasil

De acordo com a Anvisa, os corantes artificiais permitidos no Brasil são: amaranto, vermelho de eritrosina, vermelho 40, ponceau 4R, amarelo crepúsculo, amarelo tartrazina, azul de indigotina, azul brilhante, azorrubina, verde rápido e azul patente V. Porém, alguns destes corantes, como o amarelo tartrazina, já foram proibidos em outros países, por terem provocado reações alérgicas e problemas respiratórios graves em seres humanos.

Os alimentos coloridos artificialmente permitidos no Brasil devem apresentar informações da presença de corantes artificias no rótulo. Assim, quem compra pode decidir levar ou não alimentos contendo essas substâncias.

A fiscalização das indústrias é muito importante, pois já foram relatados casos de rótulos de alimentos que não informavam corretamente o tipo de corante usado. Em outros casos, o fabricante usou corante acima do limite permitido.

 

De leve com as cores

Com base em pesquisas científicas, o nosso Ministério da Saúde informa qual o valor máximo de corantes artificiais que podem ser consumidos por uma pessoa em um dia. Quando esse limite é ultrapassado, a pessoa pode se intoxicar.
Pessoas que comem muitos produtos industrializados acabam ingerindo maiores quantidades de corantes sintéticos do que as pessoas com alimentação mais natural e balanceada. As crianças são as principais vítimas.
Pensando nisso, as escolas, os médicos, os nutricionistas fazem cada vez mais alertas sobre a importância de diminuir o consumo dos corantes sintéticos, dando preferência aos naturais. Se as pessoas realmente fizerem escolhas melhores, as indústrias terão de fabricar alimentos de acordo com a preferência do público.
Você já fez a sua escolha?

 

Rachel Ann Hauser Davis,
Fundação Oswaldo Cruz.


Tem ciência em tudo – até no balé!

O teatro está cheio, as luzes brilham e iluminam todo o cenário. Sobem ao palco as bailarinas. O espetáculo começa e, você não acredita nos seus olhos: elas parecem voar!
No dia seguinte, você vai para a sua aula de balé com a decisão de fazer igual, mas mal sai do chão. A professora vê você triste e fala: “Você ainda vai aprender a enganar a gravidade…”. O que ela quis dizer com isso?

Ilustração Mariana Massarani

“Essa menina tão pequenina quer ser bailarina. Não conhece nem dó nem ré, mas sabe ficar na ponta do pé.” Assim falou Cecília Meirelles em seu famoso poema A bailarina. Pode ser que a poeta estivesse certa e, realmente, saber as notas musicais não fizesse muita diferença para a pequena bailarina… Mas será que existe algum outro conhecimento que poderia ajudar essa menina?

A resposta talvez surpreenda, mas é verdade: o conhecimento das leis da física! Isso mesmo que você ouviu, a física pode explicar desde um simples equilíbrio na ponta dos pés até os saltos e giros mais malucos! A física tenta compreender e descrever a natureza. Para isso, explicar o movimento dos corpos (sejam planetas, partículas e até mesmo pessoas) é fundamental.

 

Ciência do movimento

Você já deve ter visto em desenhos animados ou nas histórias em quadrinhos a representação de um moço sentado debaixo de uma árvore e, de repente, ploft!, cai uma maçã na cabeça dele. Essa é uma maneira divertida de contar sobre uma observação científica que ocorreu há algumas centenas de anos. O moço representado nessa história é Isaac Newton, físico inglês que observava o mundo ao seu redor e tentava explicar o movimento das coisas. Ele viveu de 1643 a 1727.

A partir de comparações com o movimento da maçã caindo da árvore, Newton explicou que existe uma força invisível que – de uma forma simples, podemos dizer – a todo tempo puxa tudo para o chão. Atualmente, conhecemos essa força como força da gravidade. Além dessa e de muitas outras descobertas, o cientista também escreveu as ‘leis de Newton’, um conjunto de três leis usadas até hoje para explicar porque os corpos ficam parados e porque eles se movem.

 

Na ponta dos pés

Se você já tentou imitar o Saci-Pererê e ficar em uma perna só, sabe como equilíbrio é uma coisa complicada. Basta tirar um pé do chão que a gente começa a balançar tanto que quase cai. Agora, imagine se, além de tirar o pé do chão, você precisasse encostar o pé na cabeça. Ficou mais difícil, né? Pois é exatamente isso que as bailarinas fazem.

Seja com o pé todo ou apenas a pontinha do pé no chão, a regra para não cair é a mesma: encontrar o ponto de equilíbrio. Mas como? Você precisa saber que todos os corpos possuem um “centro de gravidade”. Quando estamos parados com os dois pés no chão, esse centro fica na região da barriga (veja o desenho). Se tiramos uma das pernas do chão e a colocamos na cabeça, o tal centro de gravidade se desloca um pouquinho para o lado da perna levantada. Para termos um bom equilíbrio, é preciso traçar uma linha reta imaginária entre o centro de gravidade e a parte do pé que está em contato com o chão, como a bailarina da foto! Por isso, quando tiramos um dos pés do chão, precisamos ajeitar todo o corpo!

Ilustração Marina Vasconcelos
A bailarina consegue o equilíbrio alinhando seu centro de gravidade com a ponta da sapatilha.
Foto Peter Ilicciev/Bailarina Anoushka Zoé/ Centro de Movimento Deborah Colker

Ao alto e avante

Sabe quando cai aquela chuva que deixa poças de água enormes sobre o chão? Para aprender a saltar as poças, evitando molhar os pés depois de um temporal, a melhor solução é pedir ajuda a uma bailarina.

Tanto em aulas quanto em apresentações, bailarinos saltam de mil e uma maneiras diferentes. A variação entre um salto e outro está no planejamento. Antes de sair do chão, a bailarina precisa decidir se deseja voltar para o mesmo lugar depois do pulo, ou se prefere se deslocar pela sala. Uma vez no ar, nada pode ser feito para alterar sua trajetória.

Para entender o porquê dessa charada é preciso conhecer melhor uma das ‘leis de Newton’: a ‘lei da ação e reação’. Segundo essa lei, para um corpo parado entrar em movimento é preciso um ‘empurrãozinho’ de forças que surgem a partir da interação entre diferentes corpos. Vamos ver um exemplo para ficar mais fácil! Ao saltar, o único contato que a bailarina tem com outro corpo vem de sua interação com o chão. Seguindo o princípio da ação e reação, quando a bailarina empurra o chão para baixo, o chão empurra a bailarina para cima. Portanto, se a bailarina quer pular de um lado para outro do palco, ela precisa empurrar o chão para baixo e para trás – o resultado você vê na foto.

Para grandes saltos, é importante empurrar o chão com os pés antes de ir para o ar.
Foto Peter Ilicciev/Bailarina Anoushka Zoé/ Centro de Movimento Deborah Colker

Roda, roda, roda

O jogo do pião de madeira pode ser brincadeira dos seus avós, mas com certeza você já viu um brinquedo parecido. Por mais que o tempo passe, a disputa por quem consegue fazer o pião girar por mais tempo continua sendo divertida.

Sortudas são as bailarinas, que podem esquecer os brinquedos em casa e ainda assim conseguir jogar. Uma, duas, três, quatro, cinco piruetas seguidas! Como essas meninas fazem para rodar tanto na ponta dos pés?!

Depois de soltar o pião, você pode apenas torcer para ele não bambear. A situação para a bailarina é bem parecida, já que a parte mais importante do giro é a preparação. Isso acontece porque, assim como nos saltos, o chão é quem dá o empurrão na direção do movimento. A diferença é que, ao rodar, a bailarina precisa usar os dois pés para empurrar o chão em direções opostas, criando um “torque”, isto é, a torção que gera as rotações. Além dos pés, os braços também são essenciais para as piruetas. O motivo? A velocidade do giro vai depender da distância entre todas as partes de seu corpo e uma linha reta (imaginária!) que sai do ponto no chão onde ela gira. Ao trazer os braços para perto do corpo, a bailarina roda mais rápido!

A preparação para a pirueta vai determinar um bom giro. Abrir e fechar os braços é essencial!
Foto Peter Ilicciev/Bailarina Anoushka Zoé/ Centro de Movimento Deborah Colker

Magia da dança

E aquilo que a professora falou sobre enganar a gravidade? Apesar de os bailarinos se esforçarem para criar a ilusão de estarem desafiando as leis da natureza, a física está sempre presente no movimento. O balé é como um show de mágica. Sabemos que é impossível o mágico ter cortado sua assistente ao meio, mas ele consegue enganar a audiência. Com a ajuda da varinha mágica da ciência, a bailarina nos faz acreditar ser possível voar.

 

Carolina  Andries Gigliotti
Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Física,
Instituto de Física, Universidade Federal do Rio de Janeiro.


A lama que conta história

Mole… gosmenta… eca! Ah, fala sério! É só isso que vem à sua cabeça ao imaginar a lama que está no fundo de uma lagoa? Pois é hora de rever suas ideias. Saiba que a lama pode ser uma boa informante e revelar histórias sobre os seres que viveram na água – ou até mesmo fora dela! Como a lama conta histórias? Bem… com a ajuda de alguns equipamentos, técnicas e pesquisadores atentos!

Ilustração Jaca

Para fazer a lama revelar o que sabe, é preciso retirá-la das profundezas das lagoas. Mas isso não pode ser feito de qualquer maneira. Um dos profissionais que coleta este material é o(a) limnólogo(a), especialista no estudo das águas continentais. Retirar a lama com cuidado é importante porque, se o material for sacolejado demais, não passará as informações com precisão.

Uma das estratégias é descer, no meio da lagoa, um tubo transparente que afunda rapidamente na água. Ao chegar no fundo, esse equipamento prende uma parte da lama. Em seguida, ele é puxado com a ajuda de uma corda. Fora da lagoa, a lama capturada é cuidadosamente separada em pequenas camadas. Ela pode ser dividida, por exemplo, em discos de mais ou menos um centímetro de altura.

Sedimento sendo retirado do fundo de uma lagoa para estudo dos microfósseis.
Imagens cedidas pelos autores

Depois disso, as camadas de lama são estudadas uma a uma no laboratório. Por meio de técnicas especiais, é possível calcular a idade delas, ou seja, se foram parar no fundo da lagoa há dezenas, centenas ou milhares de anos. Se a lama não foi remexida anteriormente, os especialistas podem construir uma linha do tempo. Nesses casos, as porções de lama que ficam na parte de cima do tubo são as mais novinhas. Elas vão sendo depositadas ao longo do tempo sobre aquelas que ficam na parte de baixo e são mais antigas. Cada camada de lama representa, portanto, uma época da lagoa.

 

Restos de moradores preservados na lama

Sabendo a idade das camadas, o passo seguinte é investigar o que está no meio delas. Dessa forma, saberemos quais eram os moradores da lagoa, quais desapareceram do ambiente, quais deixaram descendentes e ainda estão por lá ou mesmo os que chegaram há pouco tempo. Tudo isso é possível porque partes dos corpos de diferentes seres vivos ficam preservadas em meio à lama.

Esses vestígios podem ser fragmentos dos animais mortos – como cabeças de insetos, carapaças de crustáceos ou escamas de peixes. Os desbravadores de lama também já encontraram casquinhas de ovos de seres aquáticos, pólen de plantas terrestres, restos de algas e várias outras coisas. Muitos vestígios são bem pequenos e chamados de microfósseis. Nesses casos, só podemos enxergá-los com a ajuda de um aparelho que aumenta inúmeras vezes o tamanho desses vestígios, o microscópio.

Identificando todo esse material, os cientistas conseguem reconstruir uma parte da história de um ambiente. Assim, se encontrarem, por exemplo, muitos vestígios de um inseto em uma camada de lama com pouco mais de 100 anos, isso é uma boa dica de que estas criaturas viviam na área estudada no século passado. Do mesmo modo, se não encontrarem nadinha em outra porção mais superficial, isso é uma evidência de que tais insetos sumiram ou tiveram suas populações reduzidas nos últimos tempos.

Microcrustáceo da espécie Bosmina tubicen (imagem da esquerda). F 2A: Microfóssil da mesma espécie preservado no sedimento de uma lagoa há aproximadamente 80 anos (imagem da direita)
Imagens cedidas pelos autores

Curiosidade ou preservação?

Acredite: a investigação da lama não é apenas para matar a curiosidade dos especialistas. Quem protege o meio ambiente defende que a técnica de análise da lama pode, por exemplo, ajudar a recuperar uma lagoa que foi degradada pelo ser humano. Como assim? Sabendo quais seres vivos habitavam aquele ambiente no passado e desapareceram após impactos humanos, podemos trazer novos indivíduos dessas espécies para viverem outra vez naquela área quando ela estiver limpinha e restaurada.

Mas, para não se atolar na lama, preste atenção: nem sempre o que está no fundo de uma lagoa tem consistência mole e gosmenta. Isso pode variar. Algumas vezes, o material pode parecer mais com uma porção de areia. Isso porque, ao longo do tempo, as partículas que vão se depositando no fundo das lagoas ajudam a formar o sedimento, tenha ele aspecto lamacento ou arenoso.

 

Lama linguaruda

A lama não tem uma memória perfeita. Ele não revela tudo. Os corpos de alguns seres vivos, por exemplo, não se preservam facilmente e desaparecem após algum tempo. Sem vestígios, fica difícil saber algo sobre essas criaturas.

Ainda que não revele tudo, a lama tem muito a nos contar. Por isso, da próxima vez que visitar uma lagoa, lembre-se que lá no fundão tem uma lama quietinha que, se for cutucada, é capaz de se transformar numa informante ambiental daquelas, revelando histórias que podem ser recentes ou de muito tempo atrás!

 

Daniel Marchetti Maroneze
Colégio Técnico,
Universidade Federal de Minas Gerais

Paulina Maria Maia Barbosa
Laboratório de Limnologia, Ecotoxicologia e Ecologia Aquática,
Universidade Federal de Minas Gerais


Loucos por ciência

Quando várias pessoas gostam muito do mesmo assunto e se reúnem para colocar em prática essa paixão, surge o que chamamos clube. Assim, os que amam futebol se reúnem para criar um clube de futebol. Quem adora cinema, um cineclube. E os loucos por ciência? Será que se reúnem para criar clubes de ciências? Mas é claro! Agora, o que se faz em um clube assim?

Ilustração Jaca

Um clube de ciências nasce do interesse (da paixão mesmo!) de algumas pessoas por atividades científicas. Logo, é um espaço no qual todos podem falar, conversar, trocar ideias e debater sobre tudo o que diz respeito à ciência.Além disso, o clube estimula o trabalho em equipe – o que é muito importante para o crescimento das pessoas como cidadãs, e para toda a sociedade.

No Brasil, onde grande parte da população tem pouco (ou nenhum) conhecimento sobre os resultados do trabalho dos cientistas, os clubes de ciência são muito importantes, porque podem aproximar as pessoas do contato com a ciência, do entusiasmo que está por trás de experimentar ou testar uma ideia.

 

E o que se faz lá?

As atividades de um clube de ciências são normalmente bem variadas. As pessoas podem se reunir, por exemplo, para ler e interpretar um texto científico ou para assistir a um filme que tenha ciência no roteiro – como diversos filmes de super-heróis. O programa também pode ser discutir a encenação de uma peça de teatro ligada à ciência,observar o céu, além de várias outras atividades. A frequência e a forma de se reunir são combinadas entre os próprios integrantes do clube.

Mas a paixão por ciência não basta. Para que o clube possa ser considerado sério e as discussões sejam de qualidade, a presença de um especialista nos encontros é muito importante. Que especialista? Professores, pesquisadores, cientistas que tenham disponibilidade de ajudar na organização do grupo.

 

Como tudo começou

Os clubes de ciência surgiram a partir da metade do século 20,dentro dos ambientes escolares. Os professores perceberam que, na escola, os alunos não tinham conhecimentos suficientes na área científica. Em outras palavras, as escolas não conseguiam formar pessoas que entendessem o verdadeiro sentido da ciência. Mas, por quê?

Talvez porque fossem necessárias mais aulas de ciências. Talvez porque os professores devessem ter mais liberdade para organizar as aulas de acordo com os interesses de seus alunos e assim despertar mais a atenção deles para o modo de fazer ciência. O fato é que da forma como a ciência era ensinada nas escolas, poucos aprendiam o mínimo que deveriam.

Por conta disso, a criação de clubes de ciência foi uma aposta de várias escolas. Fora do horário das aulas, era possível realizar debates e trabalhar diferentes temas que reforçariam o conhecimento científico dos estudantes. E parece que essa aposta deu certo! Diferentes estudos mostram que jovens envolvidos, de verdade, em clubes de ciência melhoram seu rendimento escolar.

 

E fora da escola?

Os clubes de ciência podem (e devem) ser criados independentes da escola também. Pode ser numa associação de moradores, dentro de um clube social, ou até mesmo na casa de um dos clubistas. O que importa é se encontrar e discutir ciência, fazer com que as pessoas percebam que ela (a ciência!) está presente em nosso dia a dia. Basta termos um olhar mais atento para perceber.

Hoje existem muitos clubes de ciências no Brasil. A Rede Internacional de Clubes de Ciências (https://www.clubesdeciencias.com), criada por um grupo de professores da Universidade Regional de Blumenau, no estado de Santa Catarina, é uma delas!Segundo os próprios criadores, a rede surgiu“para produzir e compartilhar práticas inovadoras de ensino e pesquisa em contextos de Educação Científica na América Latina”. Em outras palavras: ela existe para divulgar o ensino de ciências em todo o Brasil.

Sabia que há mais de 40 clubes de ciências registrados em todo o país? Pois é! Eles estão espalhados em diferentes estados. Será que tem um perto de você? Que tal conferir?

Clube de Ciências do CIEP 449 Brasil-França.
Clubes de Ciências Brasil.
Clubes de Ciências Brasil.
Fotos cedidas pelo autor

Encontro de clubes

Em 2017 chegou ao Brasil o evento Clubes de Ciência Latin America. Ele foi realizado em Belo Horizonte na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), durante as férias escolares de julho. Foi uma semana inteira de atividades científicas. Foi tão legal que esse ano terá de novo, em algum outro lugar do país. Você não vai perder, né? Acompanhe as novidades na página: https://www.clubesdeciencia.com.br

Futuro cientista

Pensando no futuro, é importante investir mais e mais na criação dos clubes de ciências. Com eles, podemos alcançar vários objetivos, como relacionar as atividades dia a dia com a ciência, fazer experimentos, questionar e desenvolver conhecimentos na prática.

Somente com conhecimento as pessoas são capazes de reconhecer seus direitos e deveres, de tomar atitudes para transformar sua realidade e, consequentemente, melhorar a própria vida e a de suas comunidades.

Por isso, se está pensando agora mesmo em criar um clube de ciências, não deixe essa vontade escapar!Lembre-se, há ciência em tudo a sua volta!

 

Alberto Lazzaroni,
Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro,
CIEP 449 Intercultural Brasil-França.

Na sua escola já existe um clube de ciências? Conte para a gente como é. Se não tem e você quiser mais informações, clique aqui. Será um prazer ajudar!


Venenos que podem curar

As substâncias tóxicas produzidas por alguns animais são usadas para caçar presas, proteger contra predadores e para combater doenças também – as deles e as nossas!

Diversas substâncias encontradas na natureza podem ser consideradas tóxicas para o ser humano, ou seja, podem causar algum tipo de mal ao nosso organismo. Toxinas produzidas por plantas e animais geralmente têm a função de defender esses seres contra predadores e outros inimigos naturais.

Em alguns casos, essa defesa ocorre de forma passiva, quer dizer: a planta ou o animal precisam ser atacados para que a toxina entre em ação. E isso pode ser simplesmente por ter um gosto ruim, por causarem dor e outros prejuízos ao predador. Os anfíbios são um bom exemplo desse uso das toxinas: a pele desses animais produz diversas substâncias que os protegem não apenas de predadores, mas também de bactérias e outros microrganismos causadores de doenças.

Outros animais usam essas toxinas de defesa de forma mais ativa, quer dizer: por meio de seus pelos, ferrões ou dentes,podem injetar seu veneno em possíveis predadores ou em suas presas. Quem já foi picado por uma abelha ou marimbondo sabe como esse tipo de defesa pode ser eficiente, não é verdade? No caso específico das serpentes peçonhentas (lembrando que nem todas as espécies possuem veneno), suas toxinas têm a função principal de matar ou imobilizar suas presas, além de iniciar o processo de digestão antes mesmo de engoli-las.

Medicamentos importantes já foram desenvolvidos a partir dos venenos de serpentes brasileiras, como o da jararaca (Bothrops jararaca),que deu origem a um remédio para quem sofre de pressão alta.
Foto: Vinícius São Pedro
Uma substância do veneno da aranha-armadeira (Phoneutrianigriventer) está sendo usada na elaboração de um potente medicamento contra dor.
Foto: Fernando Dagosta; Flickr

Analisando esses venenos em laboratório, é possível perceber que eles são formados por uma mistura de substâncias, cada uma com funções específicas no organismo da vítima. Assim, algumas substâncias são responsáveis por causar dor, outras podem impedir o funcionamento do sistema nervoso (responsável por controlar todas as funções do nosso corpo), enquanto outras inibem a coagulação sanguínea (processo que cria uma espécie de tampão nas nossas feridas e interrompe os sangramentos).

O que por um lado pode parecer assustador, por outro é uma excelente oportunidade para a ciência. É que cada uma dessas substâncias tem um uso em potencial na medicina.  No Brasil, por exemplo, várias pesquisas têm investigado o uso de venenos de aranhas, escorpiões, cobras e outros animais na produção de antibióticos, analgésicos, na cicatrização de feridas e no combate a doenças como pressão alta e câncer.

Esse é mais um ótimo motivo que temos para preservar nossos animais, porque mesmo aqueles considerados perigosos podem ser muito úteis para o nosso bem-estar.


O sangue não é só vermelho?

Vermelho, azul, verde, violeta, transparente… Quem diria que o sangue pudesse ter tantas cores ou cor nenhuma?

Certo dia brincávamos de pega-pega na casa do vizinho. Naquele corre-corre, tropecei e ralei o joelho no chão. Ai, como doeu! Do machucado, saía…SANGUE! Mais tarde, já em casa e com curativo, pensei: por que o nosso sangue é vermelho? Será que algum animal tem sangue de outra cor? Se você já se fez essas perguntas, chegou a hora de descobrir a resposta!

O sangue transporta nutrientes, células de defesa, e outras substâncias importantes para o corpo. O oxigênio que respiramos é uma delas,essencial para que nossas células produzam energia. No sangue, o oxigênio viaja dentro de um tipo especial de célula, as hemácias, também chamadas, por causa da cor, de glóbulos vermelhos. Quem dá cor às hemácias – e, portanto, ao sangue – é a hemoglobina, que tem ferro, e é com ela que o oxigênio pega carona.

O sangue de humanos e muitos outros animais é vermelho por causa da hemoglobina, substância que se liga ao oxigênio dentro das hemácias – as células achatadas na imagem.
Foto Pixabay

Mas, ao contrário do nosso sangue, o sangue das aranhas, crustáceos, e alguns moluscos (grupo das lulas, polvos e caramujos), não tem hemoglobina, mas outra substância: a hemocianina. No lugar do ferro da hemoglobina, a hemocianina tem outro elemento, o cobre. E isso faz toda a diferença, porque em contato com o oxigênio, a hemocianina deixa o sangue desses bichos azul!

Um poliqueto, animal marinho do mesmo grupo das minhocas, com corpo transparente, sendo possível ver seu sangue verde lá dentro
Foto Flickr (CC BY-NC-SA 2.0).
Um poliqueto, animal marinho do mesmo grupo das minhocas, com corpo transparente, sendo possível ver seu sangue verde lá dentro.
Foto Flickr (CC BY-NC-SA 2.0).

E que tal sangue violeta? Ele está presente em alguns animais marinhos esquisitos até no nome: sipúnculas, priapúlidas e braquiópodes. Neles, quem carrega o oxigênio é a hemeritrina. Para completar, tem o sangue verde, encontrado em muitas espécies de poliquetos, “primos” das minhocas. Ele é dessa cor, porque contém clorocruorina. Tanto a clorocruorina quanto a hemeritrina contêm ferro, mas a composição química é diferente da nossa hemoglobina, e por isso o sangue com uma dessas duas proteínas não fica vermelho.

Alguns pequenos lagartos da Ásia também têm sangue verde, mas não pela presença de clorocruorina. O sangue deles têm hemoglobina como o nosso, mas têm também uma alta concentração de biliverdina, substância tóxica para a maioria dos bichos, só que não para esses répteis.

Sangue transparente também existe? Sim! O sangue do peixe-gelo, que vive na costa da Antártida, não tem cor, porque o oxigênio circula por ele sem pegar carona com nenhuma substância. E existem ainda animais sem sangue, nos quais o oxigênio entra da água ou do ar direto nas células, como é o caso das esponjas-marinhas, corais, águas-vivas, estrelas-do-mar e ‘vermes’, como planárias, solitárias e lombrigas.

Como deu para ver, a variedade de tipos de sangue é grande entre os bichos. Esse é só mais um pequeno exemplo de quão rico e fantástico é o mundo animal!

 

Henrique Caldeira Costa,
Departamento de Biologia Animal
Universidade Federal de Viçosa


Formiga pré-histórica

Presas em resinas de árvores há milhões de anos, essas formigas tiveram seu corpo preservado!

Haidomyrmexzigrasi, uma formiga que viveu há 99 milhões de anos e foi preservada em âmbar. Repare o curioso formato da mandíbula, semelhante a um espinho voltado para cima, saindo da base da cabeça.
Crédito: Phillip Barden/Antweb.org

A pesquisa sobre os insetos fósseis tem mudado o entendimento dos cientistas sobre como as primeiras formigas evoluíram. Algumas das formigas fósseis mais interessantes (e esquisitas!) são as do gênero Haidomyrmex, também conhecidas como “formigas-do-inferno”, “formigas-dentes-de-sabre” ou “formigas-mamute”. Elas viveram durante o Cretáceo – o último período da famosa era dos dinossauros – onde hoje fica Myanmar, país ao sudeste da Ásia. Eram pequenas, mas tinham mandíbulas poderosas, capazes de perfurar suas presas.

 

Dentes de formiga

A maioria dos insetos, incluindo as formigas, têm mandíbulas mastigadoras, formadas por um par de peças endurecidas e dentadas, que servem para amassar e cortar os alimentos. Elas se movimentam como uma tesoura ou um alicate, abrindo e fechando, da lateral para o meio da cabeça. Mas nas três espécies de Haidomyrmex, as mandíbulas se moviam de baixo para cima – encoste os cotovelos juntos na barriga edobre-os para cima e para baixo e verá um movimento semelhante.

As mandíbulas dessas formigas eram compridas demais, talvez não servissem para cortar nem triturar os alimentos, mas para perfurar suas presas, que, provavelmente, eram outros artrópodes ainda menores. Os líquidos do corpo da presa provavelmente escorriam das mandíbulas para a boca da formiga e eram engolidos.

Formiga Haidomyrmex (e uma vespa em cima dela) preservada em uma pequena pedra de âmbar, e um detalhe de sua cabeça com as estranhas mandíbulas voltadas para cima.
Crédito: Júlio Chaul

Formigas hoje

As formigas evoluíram ao longo de milhões de anos a partir de um grupo de vespas. Hoje, são um dos grupos mais bem-sucedidos de insetos do planeta, com mais de 13 mil espécies conhecidas!

Mas as espécies de formigas que surgiram e se extinguiram no Cretáceo com suas curiosas mandíbulas só podem ser apreciadas por nós através dos âmbares – um líquido que escorre de árvores e endurece como pedra, conservando por milhões de anos aquilo que eles, por acaso, envolveram

Foto Broken Inaglory/Wikimedia Commons

 

Pedras do tempo

Muitas espécies de árvores produzem resinas de proteção, geralmente com a textura de melado, que escorrem pelo tronco e acabam envolvendo partículas de solo, folhas e até pequenos animais, como insetos. Algumas árvores pré-históricas também produziam resinas. Os cientistas sabem disso porque já foram encontradas resinas fossilizadas com milhões de anos. Depois de tanto tempo, elas ganharam a forma de pedras translúcidas, amarelo-alaranjadas, conhecidas como âmbares. Algumas apresentam animais, como pequenos insetos, em seu interior! Os animais presos em âmbar são um dos mais belos tipos de fósseis. Às vezes parece que você está olhando para os bichos vivos, usando uma lente amarela! O estudo dos âmbares é muito importante para a paleoentomologia, área da ciência que pesquisa os insetos do passado da Terra.

Júlio Chaul,
Laboratório de Sistemática e Biologia de Coleoptera,
Departamento de Biologia Animal,
Universidade Federal de Viçosa.


Especial

Ciências

Volume 5

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